Outras Trilhas

Qual é a sua bússola?

Destino: Deserto do Atacama, Chile

Guarda do parque voltando para a base próxima à Laguna Miscanti, Atacama (Licença CC, pode ser reproduzida, desde que os créditos sejam dados para Estela Caparelli/OutrasTrilhas

Guarda do parque voltando para a base próxima à Laguna Miscanti, Atacama (Licença CC - foto pode ser reproduzida desde que a autoria seja atribuída a Estela Caparelli/OutrasTrilhas)

Você, com certeza, já deve ter usado a palavra “deserto” para se referir ao vazio de um lugar ou de uma situação. Afinal, convenhamos, o deserto é um local árido, sem vida, com pouco ou nada para ser visto, certo?

Lamento informar que, se você se você concorda com a afirmação acima, está irremediavelmente errado. O deserto do Atacama, no norte do Chile, é uma das provas de que a natureza não deixou de ser generosa com esses locais de baixa precipitação pluviométrica. São paisagens impressionantes, tons de azul e vermelho jamais catalogadas, lagoas de sal, vulcões calados, sem falar na fauna e flora únicas.

Note que estamos falando do mais alto e árido deserto do mundo. Segundo a Wikipedia, é o lugar na Terra que passou mais tempo sem presenciar chuvas: foram 400 anos (quatrocentos, isso mesmo) sem indícios de uma gota de água vinda do céu.

Mesmo para aqueles que ouviram falar dos seus atrativos naturais – como foi o meu caso – o Atacama é capaz de embasbacar o mais cínico dos mortais. Talvez sejam as toneladas de quartzo e de cobre debaixo da terra, talvez seja a herança indígena dos aymaras que impregna as sopradas de vento ou, quem sabe, a inacreditável profusão de corpos celestiais acima de nossas cabeças. Não importa: penetrar no Atacama é deixar um pouco de si mesmo para trás (incluindo ideias como a de que o deserto é “deserto”).

Essas tem sido razões suficientes para tornar San Pedro de Atacama, uma das portas de entrada para o deserto, é um dos mais populares destinos turísticos do Chile. Encravada a 2440 metros de altitude, San Pedro é um pequenino povoado de 3 mil habitantes dedicado ao turismo com ar rústico e muito acolhedor. Mesmo em baixa temporada, você vai desembolsar bem mais do que pousadas e hotéis têm a oferecer. Mas o investimento vale cada centavo de peso chileno gasto na jornada.

O povoado já foi ponto de parada obrigatória nos tempos pré-colombianos na rota entre as montanhas e a costa chilena. No século XX, os transportadores de gado paravam por ali antes de seguir jornada para o campos de nitrato do deserto. Durante os passeios por Atacama, ainda é possível encontrar algumas áreas agrícolas milenares, onde a população local ainda cultiva frutas e vegetais.

Visão da Laguna de Cejar (Foto com licença CC, pode ser reproduzida desde que seja creditada a Estela Caparelli/OutrasTrilhas

Visão da Laguna de Cejar (Foto com licença CC: pode ser reproduzida desde que sua autoria seja atribuída a Estela Caparelli/OutrasTrilhas)

Fotos e descrições dos atrativos de Atacama são injustos com sua grandeza. Por isso, depois dessa viagem de apenas quatro dias (a próxima será para a vida toda), posso oferecer os seguintes conselhos:

1. Leve uma grande mochila e se prepare para climas extremos: roupas leves para o calor infernal das manhãs e pesadas o suficiente para segurarem o frio que podem chegar a 25 oC negativos às 4 da manhã na área dos geiseres.

2. Não deixe de observar as estrelas no deserto. Dizem os especialistas que esse é um dos melhores lugares do mundo para contemplar os corpos celestes. Deve ser verdade: o maior radio telescópio do planeta está sendo construído no local a partir do projeto que leva o instigante nome de A.L.M.A. Alugue um carro e fuja e madrugada para o deserto ou faça um tour pelas estrelas com o astrônomo francês Alain Maury. Com muito humor, ele vai explicar como “ler” as estrelas e você ainda poderá observar os astros por meio de alguns telescópios espalhados no local onde ele montou com sua mulher o Servicios Astronomicos Maury y Compañia (055 851 935 ou http://www.spaceobs.com). O tour noturno de duas horas e meia vale 30 reais e dá direito a uma caneca de chocolate quente no final das observações (acredite: você vai precisar de pelo menos duas delas para se reaquecer). Nota: A foto abaixo foi tirada por Maury usando um de seus telescópios.

Lua, foto tirada a partir de telescópio de Alain Maury durante o "tour pelas estrelas"em Atacama

Lua, foto tirada a partir de telescópio de Alain Maury durante o "tour pelas estrelas"em Atacama

3. Pukara de Quitor. Alugue uma bicicleta no final de tarde e parta para as ruínas para Pukara de Quitor, a 15 minutos de pedaladas de San Pedro. Prepara-se para uma escalada de 10 minutos até o cume das ruínas e ganhe uma vista panorâmica de todo o vale, com direito a vulcões comportados.

4. Você pode ficar dias, meses, anos conhecendo e se envolvendo pelo Atacama (ou até pensar em ficar por lá, como foi o meu caso). Mas os passeios mais populares (e não menos magníficos) são:

Lagos Antiplanicos: Conheça os flamingos pela manhã na Laguna Chaxa, no Salar de Atacama, e depois dirija-se aos lagos Miñiques e Miscanti e preste atenção na cor dessas formações milenares de água e pedra. Você já tinha visto algo tão incrivelmente azul e salgado?

Laguna Miñiques (Foto com licença CC - pode ser reproduzida, desde que os créditos sejam dados para Estela Caparelli/OutrasTrilhas

Laguna Miñiques (Foto com licença CC - pode ser reproduzida desde que a autoria seja atribuída a Estela Caparelli/OutrasTrilhas)

Gêiseres do Tatio – É um dos hits do Atacama com toda razão: é incrível ver a água a uma tempetatura de 85o C saltando de pequenas fissuras do chão e formando espetaculares cortinas de fumaça em meio ao amanhecer no deserto. (Confesso que almadiçoei a mim mesma por ter aceitado acordar as 3h50 da manhã e enfrentar o frio de -12 oC. Mas o cenário de ficção rapidamente descongelou meu mau humor). Lembrando que os gêiseres de Tatio são formados quando rios gelados subterrâneos entram em contato com rochas quentes.

Geisers do Tatio (Foto com licença CC, pode ser reproduzida desde que os créditos sejam dados para Estela Caparelli/OutrasTrilhas

Geisers do Tatio (Foto com licença CC, pode ser reproduzida desde que a autoria seja atribuída a Estela Caparelli/OutrasTrilhas)

Valle de la Luna – Ver o multicolorido espetáculo de cores nas montanhas, vulcões sonolentos e rochas do Vale é paraíso para fotógrafos amadores e profissionais. Quem disse que Deus não usa PhotoShop?

Valle de la luna, Coyote (Foto com licença CC, pode ser reproduzida desde que o crédito seja dado para Estela Caparelli/OutrasTrilhas

Valle de la luna, Coyote (Foto com licença CC, pode ser reproduzida desde que o crédito seja atribuído a Estela Caparelli/OutrasTrilhas)

Laguna de Cejar – Flutue por uma das lagoas mais salgadas do mundo, confira porque é tão difícil (impossível?) chegar até o fundo dela e contemple, ali mesmo, o entardecer multicolorido com um Pisco Sour gelado. Dica: convença seu guia a fica até o início da noite e, no caminho de volta, peça para parar no deserto. A visão celestial e os sopros de vento valem CADA segundo da viagem ao Atacama.

E se você ainda acredita que deserto é sol, areia e rocha, confira o próximo post.

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outubro 17, 2009 Posted by | Chile | , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Mendoza: na terra dos Bacos do deserto

Na van, a guia – uma estudante de filosofia argentino-gaulesa, informa aos turistas presentes: em Mendoza, a ordem agora e trocar quantidade por qualidade. E ela tem razao. A regiao vem ganhando rapidamente os aplausos de consumidores e conhecedores de vinho mundo afora por obedecer a nova filosofia das melhores vinicolas mundiais.

No seculo XIX, com a chegada dos imigrantes europeus, a producao de vinhos era realizada em grande escala. A partir dos anos 90, principalmente em razao da crise interna que assolou o pais,  essas empresas familiares passaram a investir no mercado externo. Para isso, apostaram na qualidade de seus produtos.  A crise tambem tornou a regiao um copo cheio para os investidores estrangeiros, que compraram  bodegas tradicionais e construiram modernas instalacoes.

Mendoza e uma cidade localizada no meio do deserto e um sistema de irrigacao mantem a cidade suficientemente arborizada e agradavel. A vida noturna e agitada, os restaurantes sao tentandores e, claro, a oferta de vinho bom e barato (se comparado ao Brasil) e simplesmente irresistivel. Um vinho medio (para os padroes locais) sai por volta de R$ 30. E que vinho!

E dificil nao ficar levemente embriagado por ali. Em um tour pela agencia Ampora (o mesmo do inicio do post), voce pode visitar tres bodegas (vinicolas) da regiao de Lujan de Cuyo: Finca Decero, Los Chacras, Benegas. E possivel conhecer instalacoes mais modernas (Decero) e mais tradicionais (Chacras e Benegas) e degustar algumas de suas melhores producoes. O almoco e servido em um restaurante local onde o prato principal e, obviamente, o vinho. Sao servidas seis tacas, uma para cada entrada ou prato.

Na terra de Piazolla e dos Bacos do deserto, o que poderia ser mais promissor para 2009…

janeiro 8, 2009 Posted by | Na Argentina | , , , , , , , , | 3 Comentários

Do socialismo barbudo ao capitalismo vale-tudo. Em apenas 1 hora.

21/05 – Mexicana de Aviación, MX 7579

Desde: La Habana (HAV)

Hora de salida: 03:45 PM

Hacia: Cancún (CUN)

Hora de llegada: 03:50 PM

Escalas: 0

Tiempo de vuelo: 1 hora, 5 minutos

Clase: Económica (S)

Asientos reservados: 1

Estado de la reserva: Reservada y confirmada

Código de confirmación: *EDZTUK

Havana e Cancún estão separadas por um pedaço de mar. Mas cinco décadas de história transformaram cidades tão próximas em dois mundos incrivelmente distintos. Pelo menos, até agora.

Você precisa apenas tomar um vôo de uma hora e cinco minutos para deixar a terra socialista dos barbudos rumo ao capitalismo dos mexicanos. Comecemos por Cuba. Ao chegar em Varadero, um outdoor revolucionário avisa: “O que se arrecada aqui vai para o povo cubano.” Sim, o Estado é dono de cada resort e dita o que deve ser feito com o dinheiro. Estamos na terra del Che.

Está certo. É fato que os cubanos enfrentam sérios problemas. Mas também é verdade que o dinheiro arrecadado é usado para os sistemas de educação e saúde que, acredite, funcionam tão bem quanto dizem.

Mas, passemos agora para a nossa paradisíaca Cancún. Na avenida hoteleira principal, a visão dos imponentes hotéis e de restaurantes de primeiro mundo é assombrosa. São quilômetros de construções suntuosas construídas para o prazer dos estrangeiros e de mexicanos com “lana” para gastar. Ao que tudo indica, depois da última devastação provocada por um furacão, há cerca de dois anos, o capital está apostando pesado no lugar. O desenvolvimento jura que está gerando empregos. Mas quem está ganhando mesmo são os investidores que, sinceramente, não parecem estar muito preocupados com os problemas ambientais provocados pelo turismo. E sejamos francos: a única preocupação social por ali parece ser a promoção de “fiestas” regadas a margueritas.

No fim dessa longa avenida, outra realidade mostra a cara. Pequenas casas e um comércio pequeno e precário acolhem as pessoas que trabalham para erguer ou servir clientes dos hotéis. São as periferias do paraíso.

Chegamos a Playa del Carmen que, um dia, foi reduto hippie mexicano. Novamente, estamos na rota dos dólares. Na pequena rua principal, chamada oportunamente de Quinta Avenida, uma loja da Starbucks convive com restaurantes que cobram até US$ 100 por um prato. Em uma esquina, um senhor que vende artesanato mostra para o filho de quatro anos o gringo que passa distraído e, às gargalhadas, ensina para o menino: “Fala pra ele ‘cheap price, cheap price'”

Tentamos nos afastar da praia pseudo-rústica rumo a Tulum, famosa pelas ruínas maias, pelas “cabañas” feitas de madeira e pelo estilo selvagem e hipongo. Hippies? Nem sinal deles. Logo, entendemos a razão. Cada noite em uma “cabaña” rústica vale US$ 45 dólares, um valor que deve chegar a US$ 60 na alta temporada.

No dia seguinte, partimos para Chichen Itzá. Na pequena van, recebemos mais um sinal de que Tulum, mesmo em área natural protegida, é um dos alvos preferenciais do “desenvolvimento”. “Temos uma casa de câmbio e viemos a Tulum para prospectar negócios. Isso aqui vai crescer muito. Não é fantástico?””, disse, entusiasmado, um mexicano que nos acampanhava na excursão.

Admito que sai de Cuba com muitas críticas em relação a algumas medidas do governo dos Castro, que considero anacrônicas e desnecessárias. Também é importante dizer que em Cuba há um universo de primeiro mundo feito apenas para os turistas endinheirados. Mas, no México, não pude deixar de imaginar em que a ilha dos barbudos poderia se transformar diante de uma eventual adoção de um capitalismo a la Mexicana. Apesar dos pesares, devo confessar: na exuberante riviera maia, senti falta de Havana.

maio 28, 2008 Posted by | Em Cuba, México, Outra economia | , , , , , , | Deixe um comentário