Outras Trilhas

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A hora dos Games

O OutrasTrilhas começa 2010 reproduzindo o artigo sobre games de Ronaldo Lemos e Pedro Mizukami publicado recentemente na Folha de São Paulo. E, reforçando uma das mensagens dos autores,  será importante acompanhar este ano o destino do projeto de lei do senador
Valdir Raupp (PMDB-RO), que estabelece a proibição de jogos ofensivos
“aos costumes e à tradição dos povos”.
 
Games incomodam e viram arte
 
Manter os jogos eletrônicos na periferia das artes “sérias” acaba
gerando um tratamento irracional, que resvala em decisões judiciais
equivocadas

RONALDO LEMOS
COLUNISTA DA FOLHA
PEDRO MIZUKAMI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Raramente os cadernos de cultura falam sobre games. Em geral, as
críticas são técnicas e não observam o valor narrativo dos jogos como
uma mídia privilegiada para contar histórias e levantar questões. E,
sobretudo, como um referencial cultural cada vez mais compartilhado.
Dados sobre hábitos culturais em algumas capitais, divulgados
recentemente pelo Ministério da Cultura, mostram que, em todas, a
prática de “jogar games” é mais comum do que “ir ao cinema” (em São
Paulo, por exemplo, os números são 13% e 8,7%, respectivamente).
É um bom momento para pensar sobre esse fenômeno.
A narrativa dos jogos vem atingindo momentos notáveis. Um exemplo é o
recente “Call of Duty: Modern Warfare 2 (MW 2)”. As análises mais
corriqueiras vão dizer que é um excelente jogo de tiro. Dificilmente
vão notar que ele trata da questão da moralidade da guerra, o mesmo
tema de Barack Obama em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da
Paz.
Em um trecho do game -que pode ser evitado-, o personagem controlado
pelo jogador é um agente da CIA infiltrado em uma célula terrorista
ultranacionalista na Rússia. Forçado a participar do massacre de
centenas de civis em um aeroporto, ele protagoniza a atrocidade. O que
fazer, disparar? E em que outras missões disparar também se justifica?
Estão presentes, aqui, os embates morais clássicos, encarados a partir
da lógica do terrorismo e da guerra contemporânea. “Modern Warfare 2”
coloca o jogador em situações que lembram a ele sua condição de ser
moral.
A cena é perturbadora, como um filme de Samuel Fuller. A diferença é
que a imersão do jogo torna o seu impacto bastante diferente.
Qualitativamente diferente, e não “maior” ou “menor”. É justamente por
conta de preconcepções quanto aos efeitos da “interatividade” que os
jogos costumam ser tratados diferentemente dos filmes ou dos livros.
Isso tanto dificulta sua emancipação enquanto arte quanto reforça sua
conexão com o mercado. É um exemplo da mesma ansiedade regulatória que
acompanhou o nascimento da indústria cinematográfica norte-americana.
Ansiedade que resulta até em pânicos morais e censura. Que,
ironicamente, acabam ajudando a divulgar os jogos.
Para encarar os jogos com um olhar diferente, vale falar também de
diversidade sexual. No ano passado, o jogo “Mass Effect” causou
polêmica em razão de uma relação entre uma humana e uma personagem
alienígena.
Em “Fable 2”, o protagonista, um(a) garoto(a) órfão(ã), pode -se
quiser- estabelecer relações afetivas com ambos os sexos.
Ao saber que os games de hoje colocam os jogadores como protagonistas
de massacres terroristas ou de relações homossexuais, muitos vão se
sentir saudosos da época de “River Raid” e “Pac-Man”, em que as coisas
eram mais simples. É exatamente esse o sinal de que os jogos viram
arte. Incomodam do mesmo jeito que incomodava o cinema de Hollywood
dos anos 70.
Mantê-los na periferia (ou como rebeldes sem causa) das artes “sérias”
acaba gerando um tratamento irracional, que resvala em decisões
judiciais e projetos de lei que enxergam os games como se estivessem
fora da garantia constitucional de liberdade de expressão.
Neste ano, vamos acompanhar o destino do projeto de lei do senador
Valdir Raupp (PMDB-RO), que estabelece a proibição de jogos ofensivos
“aos costumes e à tradição dos povos”. Acompanharemos também
lançamentos que apostam no experimentalismo, como “Heavy Rain”.
Entre “Heavy Rain” e Valdir Raupp, há um universo complexo, ao qual um
pouco mais de atenção não vai fazer mal nenhum.

Fonte: Folha de São Paulo

janeiro 9, 2010 Posted by | Os Analógicos-Digitais | , , | Deixe um comentário