Outras Trilhas

Qual é a sua bússola?

Sagas familiares pelas lentes de Wes Anderson

Seu Jorge cantando no filme A vida marinha Steve Zissou

O cineasta estadunidense Wes Anderson tem uma filmografia enxuta, mas já conseguiu marcar presença com seu jeito particular de contar sagas familiares misturando drama e comédia, moderno e retrô, local e universal. Em A vida marinha de Steve Zissou ou Viagem Darjeeling, as aventuras dos personagens pela distante India ou pelas profundezas oceânicas servem apenas de pano de fundo para o mote central das histórias: o conflito familiar.

Como na vida real, os vínculos familiares mostrados pelas lentes de Wes Anderson são, de fato, a linha que conduz a narrativa. Não importa onde você esteja (o quão longe esteja): no final das contas, os laços familiares se impõem no roteiro.

Quero crer que, como nas películas de Anderson, os conflitos sempre podem ser solucionados, ainda que de alguma forma insólita ou inesperada. O universo tem lá seu jeito particular de dar um equilíbrio homeostático em tudo. Acreditar na mão invisível e sábia do universo pode ser pesado demais para os mais céticos. Mas, convenhamos, essa ideia traz uma baita reconforto nas horas mais difíceis.

Wes Anderson – Filmografia

maio 3, 2010 Posted by | Café Outras Trilhas | , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Simonal: he is back!

Não faltam razões para você conferir “Simonal: ninguém sabe o duro que eu dei”, dirigido por Claudio Manoel (Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal

O documentário reconta a ascensão e queda de um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos. Ou, como diz Miele (um dos entrevistados do filme) seria o maior?

Se não foi maior, Simonal foi, pelo menos, o primeiro e mais incrível entertainer brasileiro. Dominava platéis com um jeito único (quase sempre debochado) e com suas interpretações versáteis. Na história da MPB, exisitiram poucos artistas tão populares e queridos pelo público. Driblou com maestria as barreiras do preconceito racial que, do seu jeito, tratava de criticar em algumas de suas apresentações.

Sua carreira meteórica foi interrompida com as acusações sobre seu suposto apoio à ditadura. Abandonado pela classe artística, linchado pela mídia, sofreu até o final dos seus dias o ostracismo siberiano, para usar a metáfora do jornalista Arthur da Távola. Obscuro e solitário, caiu em depressão e tornou-se alcóolatra. No final dos seus dias, peregrinou por programas de TV para mostrar, com documentos, que nunca havia flertado com os militares.  Em vão. Trinta anos depois do início de sua tragédia pessoal, Simonal não havia conseguido livrar-se do fantasma do passado. Perdeu Simonal, perdemos todos nós, sem a chance de conhecer outras façanhas desse showman.

E é exatamente esse o principal motivo para você assisir “Simonal: ninguém sabe o duro que eu dei.” O filme traz de volta aquele Simonal cheio de suingue e versatilidade que as novas gerações não tiveram o privilégio de conhecer. Mais do que fazer o justiça ao cantor, o trio de diretores oferece a muitos telespectadores como eu a oportunidade de conhecer um artista brasileiro smplesmente genial.

Se você ainda tem alguma dúvida, veja este encontro entre Simonal e Sarah Vaughan…

maio 18, 2009 Posted by | Café Outras Trilhas | , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

O brega e o cult: Gérard Depardieu nos seduz com o improvável

Como um artista brega se transforma em um astro cult? Qual é a fronteira entre a cafonice e a autenticidade? Você sempre pode responder essas perguntas usando a lógica de mercado: o tal artista hipotético, por exemplo, poderia ganhar esse status com o apoio e munição$ da poderosa indústria do entretenimento. Certo?

Mas esse argumento carrega a idéia de que o público é altamente manipulável e tem poucas condições de discernir entre o que é bom (rico em significados, inovador, inspirador) e mau (superficial, comercial, vazio) no mundo da arte.

O filme Quando estou amando (Quand J´Étais Chanteur, França, 2006), em cartaz nos cinemas brasileiros, prova que, quando um artista está profundamente envolvido com sua própria arte (alma?), até o mais cafona dos espetáculos pode comover uma platéia apática.

E é isso que acontece dentro e fora da tela grande. No filme, Gérard Depardieu interpreta Alain Moreau, um cantor que ganha a vida com as apresentações que faz em salões de dança e boates de terceira linha. Uma bela noite, ele se apaixona pela corretora de imóveis Marion (a belíssima Cécile de France). A partir do encontro, ele tenta cativá-la com sua música, antiquada e excêntrica não apenas aos ouvidos de Marion mas da grande maioria de nós, observadores do drama romântico.

Durante a exibição do filme somos, pouco a pouco, seduzidos pela dupla Moreau/Depardieu. O personagem Moreau consegue derreter as resistências do espectador diante daquilo poderia ser considerado “brega.” Ao transmitir sua arte com paixão e desenvoltura, percebemos que o “feio” ou “cafona” é capaz de comover e inspirar beleza.

Com a ajuda do diretor Xavier Gianolli, o ator Depardieu nos encanta com sua capacidade de mostrar toda a riqueza de um personagem aparentemente inexpressivo e ultrapassado. Em um mundo pasteurizado pelo consumo, que valoriza apenas os ganhadores e a beleza da juventude a qualquer preço, Moreau só poderia ser considerado um cantor decadente e patético. Mas não nas mãos de Depardieu.

A interpretação do ator francês ilumina o lado do personagem que é ofuscado por nossos condicionamentos e expectativas. Diante de nós, vemos no personagem Moreau um pequeno grande herói, um sedutor irresistível, um homem autêntico. Enfim, um artista “cult” de primeira grandeza.

Ao sair do cinema, lembrei imediatamente de nossos Waldicks e Caubis. Não gosto particularmente desse estilo musical, mas não pude deixar de refletir sobre meus próprios preconceitos em relação àqueles que transmitem, de forma simples e honesta, esses sentimentos universais que vagam pelas noitadas afora.

Cults, sim!

#prontofalei

setembro 9, 2008 Posted by | Café Outras Trilhas | , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sir Chaplin em 2700 d.C.

Ontem, sexta-feira, (pois é, só ontem) foi dia de estréia de WALL-E nos cinemas mexicanos, com as longuíssimas filas já esperadas em lançamentos de blockbusters do gênero.

É realmente inevitável repetir as já repetidas comparações entre o robozinho da produção Disney/Pixar e Carlitos, o mítico personagem criado por Charles Spencer Chaplin Jr.

No ano de 2700, o vagabundo vivido por Chaplin no século XX reencarna no robô WALL-E, uma espécie de catador do futuro (seu nome é a sigla em inglês para Levantadores de Cargas Desnecessárias da Terra). Ele é uma figura solitária em um mundo tomado pelo lixo produzido pelos humanos, que abandonaram o planeta contaminado em um cruzeiro galáctico de luxo.

O personagem não apenas resgata as geniais técnicas de expressão do cinema mudo. Seus trejeitos lembram muito os do lendário andarilho. Carlitos mantinha sua elegância usando chapéu-coco, um desgastado fraque preto e grandes sapatos velhos, mais largos que seus pés. No futuro hipotético trazido pela animação, Wall-E preserva sua altivez (e eficiência) trocando suas próprias peças por similares encontrados em meio ao lixo.

Mas o que mais aproxima o catador de metal do vagabundo é a “matéria-prima” dos dois personagens. Como Carlitos, Wall-E é uma figura generosa, sensível e eternamente otimista. Consegue encontrar beleza e motivação em um mundo povoado pela adversidade. Sua imagem aparentemente frágil e desengonçada esconde coragem e muita integridade, qualidades cada vez mais raras em seres humanos.

Carlitos é uma das melhores criações dos tempos modernos. Wall-E é apenas mais uma prova de que ela ainda pode comover muita gente. Em qualquer tempo ou espaço.

E esse feito já valeu os longos e ruidosos minutos de espera na fila do cinema.

julho 6, 2008 Posted by | Café Outras Trilhas | , , , , , , , , | 1 Comentário

Persépolis e a catarse na sala escura

Cidade do México. Sala 4 da Cineteca Nacional. Tarde de sábado.

Enquanto os créditos da animação Persépolis (França, EUA, 2007) subiam indicando o final da sessão de cinema, um espectador solitário batia palmas com entusiamo. Apenas alguns dos presentes repetiram o sinal de satisfação. Inconformado com o baixo número de adesões, o homem gritou para o lado silencioso da platéia: “E vocês? Não vão aplaudir uma obra com uma mensagem tão tocante?” Uma onda de risadas foi seguida por outra de aplausos. Desta vez, com minha acalorada participação.

Com as luzes já acesas, vi sair lentamente o homem responsável pela balbúrdia. O senhor, com seus 60 e poucos anos, deixava o cinema com uma bengala e a certeza do dever cumprido. Seu corpo não respondia mais à energia de suas idéias. Mas, francamente, isso não importava. No escuro, eles nos arrancou da condição de meros espectadores. O momento de risos e aplausos materializou nossa catarse. Sim, porque pelos rostos e comentários, parece que todos saimos comovidos pela força da autobiografia da iraniana Marjane Satrapi. Ela é a autora dos (badalados) quadrinhos que deram origem à animação e é diretora do filme juntamente com Vicent Paronnaud.

Persépolis  merece nosso aplauso. Durante 95 minutos, acompanhamos, absortos, a vida de Marjane e as reviravoltas políticas em seu país. Testemunhamos a história recente do Irã por meio dos olhos e emoções da irreverente narradora e a empatia é imediata. Ela é a garotinha que nos faz rir com seu imitações de Bruce Lee, a pré-adolescente que se descabela ouvindo Iron Maiden, a jovem que sai da depressão amorosa cantando uma desafinada versão de Eye of the Tiger.

Esse é o lado bem humorado da trama. Não vamos esquecer que Marjane é uma iraniana de 38 anos que cresceu no Irã e, nessa condição, não escapou da tragédia pessoal. Perdeu amigos e parentes na guerra, viu mortos entre escombros, testemunhou o radicalismo destroçar vidas e sofreu as dores do auto-exílio.

A fórmula narrativa não é, exatamente, nova. Basta lembrar da versão cinematográfica do best-seller O Caçador de Pipas, apenas para citar uma obra mais recente. Mas há algo a mais em Persépolis. O roteiro é bem construído e, na maior parte do tempo, não se rende aos atalhos fáceis. Uma animação inteligente e original dá vida  ao relato: os traços retrô de Marjane são a alma da história. Uma alma com trilha sonora bela e eficiente de Oliver Bernet.

Voilà! O Irã, de repente, não parecia mais um país tão distante. Os iranianos não eram “sangrentos” ou “selvagens” (mesmo que, segundo a narradora, alguns acreditem nisso). Lá estávamos nós, envolvidos com o drama da menina e de sua família, solidários com as vítimas da guerra e do radicalismo religioso. Ao nos depararmos com nossa aversão à intolerância, estávamos todos conectados: mexicanos, iranianos e uma brasileira. Algo que parece se repetir em outras platéias ao redor do mundo: Persépolis já arrebatou oito prêmios e indicações para o Globo de Ouro e para o Oscar de Melhor Filme de Animação.

Aquele senhor tinha razão ao incitar as palmas da platéia. Afinal, como não aplaudir alguém que nos faz sentir um pouco mais humanos?

PS.: Ok, há quem diga que Persépolis legitima idéias de intervenção dos sábios ocidentais (Bush e seus amigos investidores, for instance) nesses países “desgovernáveis.” Fico com a verdade de Marjane.

junho 23, 2008 Posted by | Café Outras Trilhas, México | , , , , , | Deixe um comentário

Expulsos e Invisíveis

Pelo segundo ano consecutivo, sobe o número de pessoas deslocadas ou refugiadas no mundo. O número de refugiados subiu de 9,9 milhões para 11,4 milhões, enquanto o de deslocados saiu dos 24,4 milhões para 26 milhões.

Os dados são do relatório “Tendências Globais 2007” divulgados hoje (17) pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

A Colômbia apresenta o maior número de deslocados internos de todo o mundo. Segundo dados da Corte Constitucional, são cerca de 3 milhões de pessoas. Elas são vítimas do conflito armado interno que há mais de quarenta anos afeta o país e atinge, principalmente, as comunidades indígenas e os camponeses, informou a Adital.

As pessoas obrigadas a se deslocar externamente, as refugiadas, são, na Colômbia, mais de 550 mil. É o terceiro país com maior número de refugiados, atrás do Afeganistão, com três milhões, e do Iraque, com dois milhões.

Os números, como sempre, são incapazes de expressar o impacto econômico, social e emocional desse fenômeno em toda essa gente. São pessoas que, do dia para noite, são obrigadas a deixar para trás seus mortos, suas casas, seu passado. Diante de si, apenas o desejo de prosseguir e a certeza de um futuro incerto.

O documentário “Invisibles” traz as vozes dessa gente. O trabalho, produzido por Javier Bardem, trata das histórias de guerra e de epidemias dirigidas por Wim Wenders, Isabel Coixet, Fernando León de Aranoa, Mariano Barroso y Javier Corcuera.

Lançado em 2007, contou com apoio da organização Médico Sem Fronteiras.

Com este post, um trecho do capítulo sobre Colômbia, por Javier Corcuera.

junho 17, 2008 Posted by | Outros alvos, Outros relatos | , , , , , , , | Deixe um comentário

Sexo e as mulheres: dois filmes, duas medidas

Nos cinemas da Cidade do México, estão em cartaz dois filmes que tratam da sexualidade feminina. Um deles é Sex and City, versão para a tela grande do badalado seriado de TV. O outro é Irina Palm, produção inglesa dirigida pelo diretor Sam Garbarski. Em apenas um deles o espectador encontrará um retrato inteligente e atual da realidade da mulher nesses primeiros anos loucos do século XXI.

Em Sex and City, o filme, as quatro inseparáveis amigas novaiorquinas estão de volta com suas intermináveis discussões sobre sexo regadas a Cosmopolitan. Desta vez, toda a produção de estrogênios está dedicada ao casamento da colunista Carrie Bradshaw, personagem principal da série interpretada por Sarah Jessica Parker.

Em Irina Palm, Marianne Faithfull é Maggie, uma viúva de 50 anos que mora na periferia de Londres. Mergulhada em dívidas e recusada por empregadores em razão da idade avançada, Maggie decide trabalhar em um bordel para pagar a cirurgia do neto de 7 anos.

Em Sex and City, o filme, todos os resquícios de irreverência inteligente que ainda existiam no seriado da HBO foram esterilizados. São as mesmas personagens, nas mesmas situações, calçando os mesmos Manolo Blahnik. Só que, desta vez, a trama parece ter sido transportada para a Ohio de 1950. O sexo deu lugar ao desejo ardente de ter … uma família! Carrie, a colunista linda e liberada, vive para seu casamento com Mr. Big. Samantha (Kim Cattrall) deixou o emprego e a vida de devoradora de homens para se dedicar única e exclusivamente a um garotão milionário, que banca todos seus caprichos (incluindo um anel de US$ 50 mil). Miranda (Cynthia Nixon), a advogada, aparece apenas quando reclama de uma derrapada sexual do marido. Charlotte (Kristin Davis)…bem, ela continua se dedicando, de forma admirável, a manter no lugar a sua cabeça-de-vento. É bem verdade que ela o único personagem que manteve a coerência com a série. Seu único interesse foi sempre ter lá seu kit marido-filhinha-cachorrinho.

Nada contra a opção das moças. Mas, durante todo o filme, só pensava em uma coisa: correr atrás de marido e desafogar as tristezas em uma loja de sapatos é o que nos resta?

Em Irina Palm, Maggie é uma inglesa sem os encantos, sapatos ou qualificações acadêmicas das trintonas de Nova Iorque. Também tem três amigas – algumas ultrapassando a casa dos 50 – mas nenhuma veste Padra. Em lugar de freqüentar os bares da moda do Soho, elas queimam o tempo livre jogando cartas e tomando Earl Grey com leite.

Mas, surprise! Maggie é mais audaciosa, libertária e liberada que Carrie e suas amigas. Para evitar a morte do neto, enfrenta as barreiras internas – sempre as piores – e as sociais e topa trabalhar em bordel em Londres. O roteiro poderia cair no cliché e vitimizar a velhinha inglesa que masturba homens. Não é o que acontece.

O filme não tem pena do espectador. Ao oferecer a realidade tal como ela é, a trama consegue expor, de forma sutil e até bela, o processo de re-conhecimento da mulher de 50 anos em relação à própria sexualidade. No caso de Maggie, esse despertar acontece na maneira mais terrível e amarga – contra o seu desejo, por necessidade, sem amor. Mas o bordel é apenas o pano de fundo de uma história de conseqüencias mais complexas. Maggie rompe falsos moralismos, descobre seu próprio potencial como mulher e, pela primeira vez na vida, faz suas próprias opções.

Irina Palm consegue prender a atenção do telespectador com temas e personagens poucos atrativos em uma sociedade cada vez mais ávida por consumo. Maggie, a dama inglesa, talvez nunca receberá como declaração de amor um gigantesco closet para sapatos (um dos momentos mais “românticos”de Sex and City). Mas ela ganhou, definitivamente, algo melhor: cérebro!

junho 10, 2008 Posted by | Café Outras Trilhas | , , , , , , , , | 1 Comentário