Outras Trilhas

Qual é a sua bússola?

Blogs e a miopia da CNN

Deu no Gawker e no Blue Bus.

Em memorando, a CNN disse que não quer que seus funcionários divulguem opiniões sobre temas relacionados à empresa no mundo online (o que inclui salas de chat, sites de rede sociais, Second Life e… blogs!)

Se você for um funcionário e quiser manter um blog “deve notificar seu supervisor sobre isso, para evitar conflito com seu trabalho. Seu supervisor pode decidir levar o assunto a um nivel superior…”

Ah, entendi. Então essa é a emissora que busca a “verdade” e cria uma redação “cool” no Second Life?

O que chama a atenção não é o conservadorismo da decisão – algo esperado quando se trata de grandes veículos tradicionais – mas a miopia da emissora em relação às novas tendências em sua própria área de atuação.

agosto 7, 2008 Posted by | Outras mídias | , , , , , , , , , , , , , , | 1 Comentário

O direito à verdade e à liberdade de expressão: o caso Channel 4

A mídia deve ter limites? Os leitores e os telespectadores devem ser protegidos por órgãos reguladores? O aquecimento global é uma balela?

Se você está interessado em algumas dessas questões, vale a pena conhecer o debate provocado pelo documentário The Great Global Warming Swindle (“A Grande Trapaça do Aquecimento Global”), produzido pela emissora de televisão Channel 4, do Reino Unido.

Para entender a história: a comissão reguladora de telecomunicações britânica, Ofcom, decidiu punir o Channel 4 pela forma como cientistas foram tratados no documentário, transmitido em março do ano passado. A emissora teria distorcido as idéias dos climatologistas ao questionar a teoria de que a atividade humana é a principal responsável pelas mudanças climáticas e pelo aquecimento global.

Depois de 15 meses de investigações, a Ofcom considerou procedentes as queixas do ex-cientista-chefe do governo, Sir David King, e do Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPPC), da ONU, segundo o jornal The Guardian.

Com isso, ordenou que o Channel 4 divulgasse um resumo da decisão na emissora.

“Em particular, o programa fez alegações signicativas sem oferecer tempo ou uma oportunidade apropriada para resposta”, disse a Ofcom. “No caso de Sr. David King, os realizadores do programa também o criticaram por comentários que ele não fez.” A agência também afirmou que faltou imparcialidade ao Channel 4 “em relação a grandes controvérsias políticas e industriais e questões relacionadas às atuais políticas públicas”. Também declarou que “o programa deveria incluir vários pontos vistas. Os realizadores falharam nesse ponto.”

É importante lembrar que a Ofcom não analisou o tema da precisão das informações do documentário porque apenas “regula material enganoso que pode provocar danos ou ofender” pessoas e instituições. No final das contas, o Channel 4 não foi acusado de ter “enganado” o público e a emissora parece ter ficado aliviada com a decisão que, aliás, soa um pouco incoerente nesse sentido.

Em relacão à mídia, o caso levanta, mais uma vez, questionamentos sobre liberdade de expressão e veracidade das informações divulgadas pelos veículos tradicionais. O modelo britânico pode ser uma solução para casos polêmicos como o documentário da Channel 4? Adotar apenas a auto-regulação é a melhor saída?

No que se refere ao tema do programa, é sempre importante ouvir novos argumentos, principalmente, sobre temas onipresentes como o das mudanças climáticas. Mas, ao que tudo indica, The Great Global Warming Swindle é apenas uma tentativa de criar muito barulho e de desviar a atenção de um problema que precisa de mais soluções práticas e de menos ruídos histéricos.

julho 29, 2008 Posted by | Outras mídias | , , , , , , , , , , , , , , , , | 1 Comentário

Mídia impressa e código aberto: um exemplo em Kibera, Quênia

Não faltam instrumentos para reduzir de forma drástica os gastos com a preparação e a publicação de materiais impressos. Com a profusão de programas de código aberto e ferramentas de publicação web 2.0, comunidades e ONGs já podem viabilizar seus projetos de mídia impressa. E, em alguns casos, sem custo algum.

Veja o exemplo da Five Minutes to Midnight (FMM). A organização sem fins lucrativos fundada em 2003 ajudou a lançar um livro de fotos produzido por jovens moradores de Kibera, uma favela localizada nas proximidades de Nairobi, Quênia. Kibera é considerada a maior favela da África, com uma população estimada em um milhão de pessoas.

A publicação foi totalmente preparada com programas de código aberto pelos participantes de workshops realizados pela FMM. A ONG também usou o CreateSpace, editora de livros on demand da Amazon.

O livro é atualmente vendido pelo site da Amazon e pela e-store da FMM. O dinheiro obtido com as vendas é investido na organização de outros workshops oferecidos pela ONG.

Se você quer mais detalhes sobre essa história, leia a seguir o relato de Wojciech Gryc, da FMM, publicado no iCommons.

“O que foi mais supreendente em nosso trabalho é que o custo inicial da preparação do livro foi zero. Isso permitiu que nós criássemos um instrumento de arrecadação de recursos para nossos workshops sem o risco de perder o que nós já tínhamos”.

“A idéia inicial era publicar o livro em julho de 2007, enquanto estávamos fazendo capacitações em tecnologia e jornalismo em Kibera, no Quênia. Localizada perto de Nairobi, Kibera é a maior favela da África e quase sempre tem uma cobertura negativa por parte da mídia. Não há serviços de mídia com foco na comunidade e muitos dos jovens estão desempregados. Fizemos, então, uma parceria com a
Shining Hope for the Community (SHOFCO), um pequeno grupo de jovens da comunidade, como forma de oferecer tecnologia e capacitações para que eles pudessem fazer um jornal e obter conhecimentos que pudessem ser úteis para sua vida profissional.

Nos workshops foram usados “computadores reciclados, programas de código aberto e tutoriais técnicos livres.”

“Durante os workshops, os participantes usaram câmeras digitais e foram orientados a explorar o ambiente da favela – ou seja, a visitar áreas da comunidade que eles considerassem importantes. Centenas de fotos foram retiradas, muitas com foco nas pessoas e nas comunidades que formam Kibera.”

“Como os participantes aprenderam a usar GIMP (editor de imagem), OpenOffice (editor de texto), and Scribus (editoração eletrônica) [programas de código aberto, podem ser baixados de forma gratuita pela Internet], a FMM usou os mesmos programas para editar a capa, trabalhar com as fotos e editar textos. Tudo foi finalizado com Scribus e exportado como um arquivo PDF, permitindo que nós tivéssemos um livro eletrônico de fotos”.

“Para a impressão, nós decidimos usar o CreateSpace, um serviço desenvolvido pela Amazon que apresenta livros, DVDs e outros produtos que podem ser impressos ou preparados sob encomenda”. Nesse caso, a Amazon cobra apenas um percentual da venda e não exige adiantamento de pagamentos.

“Criar um livro é muito simples e o conteúdo principal está em um arquivo PDF. Um outro arquivo contém a capa e a contracapa da obra. O mais interessante sobre o site CreateSpace é que, quando o livro é publicado, pode ser vendido em uma loja virtual própria ou no site da Amazon. O CreateSpace até mesmo cria o registro ISBN do livro”.

julho 23, 2008 Posted by | Outras mídias, Outros relatos | , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Santa Petabyte das Causas Difusas: Save us All!

Era uma vez o mundo descomplicado dos megabytes. Na era do Petabyte (quantidade monstruosa de dados processados pelo Google a cada 72 minutos), nossa capacidade de entender quantidades massivas de dados está tornando obsoletos os métodos científicos conhecidos. Essa mudança é tema da capa da última edição da Wired. Parte do material pode ser acessado for free  na Internet.

Não é segredo para ninguém meu hábito incontrolável de freqüentar as páginas impressas e virtuais da revista. Mas, desta vez, recomendo fortemente a leitura da matéria de capa.

“A era Petabyte é diferente porque mais é diferente. Kilobytes eram armazenados em floppy disks. Megabytes armazenados em hard disks. Terabytes em disk arrays. Petabytes são armazenados em uma nuvem. A medida em que nos movemos ao longo dessa progressão, saimos da analogia do folder; da analogia do arquivo de escritório para a da biblioteca e… — bem, quando se trata de petabytes, fugimos de todas essas analogias organizacionais”.

Decidido. Ao lado de minha Santa Gitana del Mezcal Reposado, decidi colocar um santinho (ver reprodução abaixo) da minha Santa Petabyte das Causas Difusas. Tenho certeza que ela é capaz de iluminar minha humana ignorância com sua infinita de generosidade de dados. Meus petabytes de curiosidade agradecem a santa benção.

Imagem de Santa Petabyte das Causas Difusas, materializada nesta imagem pelas milhões de páginas de Wikipedia. Por Fernanda B. Viégas, Martin Wattenberg, and Kate Hollenbach

junho 24, 2008 Posted by | Café Outras Trilhas, Os Analógicos-Digitais, Outras mídias | , , , , , , | 1 Comentário

O primeiro reality show político da blogosfera

E a polêmica encabeçada pela blogueira cubana Yoani Sanchéz continua na Internet. Se você não tem acompanhando a história, está perdendo uma oportunidade única de acompanhar, online, a construção de uma intrigante “trama digital” sobre a transição histórica em Cuba, o único país socialista das Américas e um dos poucos a peitar o governo de Washington.

O assunto é muito sério mas, com o desenrolar da história, tenho a impressão de estar diante de um reality show político. O primeiro reality show político da blogosfera.

Resumo rápido para aqueles que ainda não conhecem a trama. Yoani Sanchéz é uma filóloga (formada em linguística e literatura) cubana de 32 anos que, em abril do ano passado, decidiu criar o blog Geração Y, uma alusão aos cubanos nascidos nos anos 70 e 80 batizados, ao estilo soviético, com nomes iniciados pela letra Y. Decidiu arriscar e lançar um blog crítico ao governo cubano com sua verdadeira identidade, com direito a foto, nome completo e CV resumido. Desde então, critica as regras do regime por meio de relatos sobre seu cotidiano em Cuba. Em uma espécie de monólogo interno, fala de sua rotina, da última medida tomada pelo presidente Raúl Castro, de cenas observadas em alguma rua de Havana.

Em poucos meses, Yoani atraiu os olhares da mídia internacional e de internautas, a maioria cubanos residentes fora da ilha. Um único post já chegou a receber seis mil comentários.

Em maio deste ano, Yoani foi incluída na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. No mesmo mês, voltou a chamar a atenção da mídia internacional quando foi impedida de viajar para a Espanha para receber o prêmio Ortega y Gasset, organizado pelo jornal El País. Nesse mesmo mês, o Geração Y atingiu a marca de nove milhões de hits.

Yoani divide opiniões. Para os críticos de Fidel Castro, ela é, simplesmente, a heroína da vez. Os mais céticos desconfiam que ela seja uma agente dos interesses imperialistas, uma mercenária ou, simplesmente, uma menina desorientada que, de forma ingênua, ajuda o inimigo cubano. Diante das centenas de perguntas recebidas por ela, respondeu, via blog: “Não tenho pedigree.”

No meio dessa história, surgiu outro personagem, Yohandry Fontana, um médico cubano de 37 anos que criou um outro blog para rebater as acusações da blogueira, que ele chama de “a outra Y”.

Esta semana, a trama voltou a ganhar fôlego ao contar com uma participação especial: o próprio Fidel Castro. Ele aparece na história por meio do (longo) prefácio que escreveu para o recém-lançado livro “Fidel, Bolivia y algo más…Una visita histórica al corazón de América Latina.”

Quase no final do texto, com data de 4 de junho, ele cita sete frases publicadas por Yoani e diz que lamenta que jovens cubanos como ela sejam “enviados especiais para fazer trabalhos secretos e de imprensa neocolonial da antiga metrópole espanhola que os premia.” É uma clara alusão ao Ortega y Gasset, oferecido a Yoani pelo jornal espanhol El País e classificado por Fidel como “um dos tantos prêmios que oferece o imperialismo para mover as águas de seu moinho”.

Fidel afirma “um dos objetivos” do prefácio é “desmascarar os métodos pérfidos y cínicos do império”. Segundo ele, “o inimigo é sumamente vil. Cavalga sobre os instintos, ambições e vaidades daqueles em que nunca germinou uma ética elementar.”

Bem, Yoani preferiu que o marido, o jornalista Reinaldo Escobar, respondesse às acusações. A resposta está em um post publicado ontem no blog de Reinaldo, o Desde Aquí. Não consegui entender bem o motivo. Tudo certo. Como bloguespectadora, já deveria esperar algo surpreendente.

Em Havana, entrevistei Yoani para matérias que estou preparando sobre a blogueira cubana. Em breve, publicarei a entrevista na íntegra.

Enquanto isso, você pode acompanhar o reality show político por meio dos blogs de Yoani e Yohandry (links estão aí ao lado, na Seção Blogs).

To be continued…

junho 19, 2008 Posted by | Em Cuba, Os Analógicos-Digitais, Outras mídias | , , , , , , , , | 1 Comentário

Mais uma da cobertura “cosmética” sobre Cuba

Ao concluir a leitura da nota “EUA consideram que as reformas em Cuba são ‘cosméticas'” no site do jornal Estado de São Paulo, logo me veio a seguinte pergunta:

Alguém pode me dizer por que tem veículo que se dá ao trabalho de divulgar, desta forma, a opinião óbvia do governo dos EUA sobre as reformas em Cuba?

Não há dúvidas que as opiniões da Casa Branca são relevantes e devem ser incluídas quando o governo dos EUA decide falar ao microfone. Mas colocar essa opinião no título de uma matéria, sem análise, sem um contextozinho, parece demonstrar ingenuidade ou muita preguiça jornalística.

Então, é mais ou menos assim que funciona: enquanto a abertura de Cuba não for total, irrestrita e alinhada ao modelo de economia de mercado, os EUA vão classificar qualquer medida tomada por Raúl Castro de “cosmética.” Pronto: enquanto isso não acontece, os jornalistas podem economizar seu tempo e os leitores, sua valiosa atenção e paciência com esse tipo de informação.

Garanto: não faltam fontes preparadas para oferecer análise e informação qualificada sobre Cuba. Com posições contra ou a favor do regime de Fidel. O que sobra é falta de vontade de reformular a cobertura do assunto.

abril 18, 2008 Posted by | Em Cuba, Outras mídias | 2 Comentários

Le Monde e a onda digital

A crise financeira que arrasta os meios tradicionais de comunicação em todo o mundo bateu em cheio na porta do tradicional jornal francês Le Monde. O grupo anunciou uma reestruturação que prevê venda de revistas e demissões de até 130 funcionários. Entre eles, estão cerca de 90 jornalistas, ou 25% da redação do veículo. Segundo a BBC, em 2007 o grupo Le Monde já havia vendido sua rede de jornais regionais. Chegou a aumentar sua tiragem. Mas, mesmo assim, o grupo amargou prejuízos de 20 milhões de euros (R$53 mi) em 2007 e acumula uma dívida que totaliza 150 milhões de euros (R$ 400 mi).

E como os funcionários reagiram? Ora, no melhor estilo francês: cruzando os braços em protesto. A edição de terça-feira, que circularia na tarde desta segunda-feira, não saiu as ruas e os jornalistas da versão eletrônica se recusaram a publicar as notícias que estariam nessa edição. É a primeira greve do Le Monde em 32 anos.

A notícia traz, novamente, o debate sobre o futuro da mídia tradicional e a expansão de novos meios de comunicação e expressão. Os problemas enfrentados pelo Le Monde são, novamente, um reflexo do avanço da Internet que, nos últimos anos, tem absorvido avidamente as receitas publicitárias. Alguns analistas também apontam a expansão dos blogs como uma das causas desse definhamento midiático. Segundo eles, muitos leitores têm preferido o tom assumidamente pessoal e opinativo dos blogs. Hoje, não é difícil encontrá-los – em formatos mais comportados – nos portais e versões eletrônicas dos veículos tradicionais.

Mas, no caso francês, também existem outras nuances. Em um artigo de 2005, Ignacio Ramonet do Le Monde Diplomatique já dizia o seguinte:

“as causas externas dessa crise são conhecidas. Uma delas é a ofensiva devastadora dos jornais gratuitos […] Eles canalizam para si consideráveis fluxos publicitários, pois os anunciantes não distinguem o leitor que compra seu jornal daquele que não paga. Para resistir a essa concorrência – que poderia ser mortal e que já ameaça os semanários –, alguns jornais, principalmente na Itália e na Espanha, oferecem diariamente, por um pequeno custo adicional, um DVD, um CD, um livro, uma enciclopédia etc. Dessa maneira, confundem ainda mais sua identidade, desvalorizam o título que publicam e dão início a uma engrenagem diabólica da qual se ignoram as conseqüências.”

É sempre importante lembrar que, além dos fatores externos, há aspectos relacionados à própria atividade que ajudam a explicar parte do problema. Um deles é a crescente perda de credibilidade de muito desses veículos de comunicação junto aos seus leitores.

abril 15, 2008 Posted by | Outras mídias | , , , | 2 Comentários