Outras Trilhas

Qual é a sua bússola?

2000’s com cara 90’s e cheiro de 30’s

 

Desesperado com as perdas amargadas na bolsa de valores, um investidor dos EUA liga para o PABX da Sala de Justiça. Perdeu todo o dinheiro durante a crise financeira e só tem poucos créditos no cartão telefônico. Tenta encontrar um super-herói que possa salvá-lo do inferno, mas é transferido de ramal para ramal por minutos.  No final, consegue falar com o Homem-Aranha, aparentemente especializado no tema. Ofegante, paletó banhado em suor, o investidor explica seu drama:

– Homem-aranha: a economia dos EUA está derretendo. Tudo vai desmoronar e só você pode nos ajudar…

Homem-aranha dá um sorriso e responde:

– Não…..

– Mas Homem-Aranha, a quebra de instituições financeiras pode levar a economia real à ruína. Empresas vão quebrar… é a depressão dos 30…

– Mmmmmm….Não….

– Homem-Aranha: não há mais ninguém em quem possamos confiar. Ninguém pode nos ajudar. Nem o Tesouro dos EUA. Você precisa fazer alguma coisa…

Diante da falta de resposta, da iminência dos dias de inferno, o investidor se atira da janela do 13o andar. O Homem-Aranha?

– Hehehehhehehe….

 

Essa é uma versão adaptada de uma das melhores tiradas do Sobrinhos do Athayde, programa de humor transmitido na rádio 89 FM de São Paulo no início dos anos 90, quando crise financeira era coisa de periferia.

O centro do capitalismo está em colapso. E não é um estouro de bolha, não é uma crise isolada. Pela magnitude das perdas e pela cara assustada dos analistas, o momento pode ser chamado de “Perfect Storm”, aquelas tormentas que ocorrem quando todas as variáveis mais terríveis ocorrem ao mesmo tempo. O Estado volta com força total (ele, sempre, o pai salvador) e idéias neoliberais são desmoralizadas.

Se você também cansou de ler tanto sobre nada em relação ao colapso neoliberal, experimente o artigo escrito pelo sociólogo Boaventura dos Santos, publicado no último dia 26 de setembro na Folha (ver abaixo). Perspectiva histórica com análise coerente. O título: “O impensável aconteceu”.

Eu o refrasearia o título: “O óbvio ululante aconteceu”. Linha fina: privatizaram ganhos e nacionalizaram os prejuízos.

Você conhece esse filme?

Ah, que saudade dos anos 90….

 

“A PALAVRA não aparece na mídia dos EUA, mas é disso que se trata: nacionalização. Perante as falências ocorridas, anunciadas ou iminentes de importantes bancos de investimento, das duas maiores sociedades hipotecárias do país e da maior seguradora do mundo, o governo federal norte-americano decidiu assumir o controle direto de uma parte importante do sistema financeiro.

 

A medida não é inédita. O governo interveio em outras crises profundas: 1792 (no mandato do primeiro presidente do país), 1907 (o papel central na resolução da crise coube ao grande banco de então, J.P. Morgan, hoje, Morgan Stanley, também em risco), 1929 (a Grande Depressão: em 1933, mil norte-americanos por dia perdiam suas casas para os bancos) e 1985 (crise das associações de poupança e empréstimo). O que é novo na intervenção em curso é sua magnitude e o fato de ela ocorrer ao fim de 30 anos de evangelização neoliberal conduzida com mão-de-ferro em nível global pelos EUA e pelas instituições financeiras por eles controladas, FMI e Banco Mundial: mercados livres e, porque livres, eficientes; privatizações; desregulamentação; Estado fora da economia, porque inerentemente corrupto e ineficiente; eliminação de restrições à acumulação de riqueza e à correspondente produção de miséria social.


Foi com essas receitas que se “resolveram” as crises financeiras da América Latina e da Ásia e que se impuseram ajustamentos estruturais em dezenas de países. Foi também com elas que milhões de pessoas foram lançadas no desemprego, perderam as suas terras ou os seus direitos laborais, tiveram de emigrar.


À luz disso, o impensável aconteceu: o Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução; cada país tem o direito de fazer prevalecer o que entende ser o interesse nacional contra os ditames da globalização; o mercado não é, por si, racional e eficiente, apenas sabe racionalizar a sua irracionalidade e ineficiência enquanto estas não atingem o nível de autodestruição.


Esta não é a crise final do capitalismo e, mesmo se fosse, talvez a esquerda não soubesse o que fazer dela, tão generalizada foi a sua conversão ao evangelho neoliberal. Muito continuará como dantes: o espírito individualista, egoísta e anti-social que anima o capitalismo; o fato de que a fatura das crises é sempre paga por quem nada contribuiu para elas, a esmagadora maioria dos cidadãos.


Mas muito mais mudará. Primeiro, o declínio dos EUA como potência mundial atinge novo patamar. O país acaba de ser vítima das armas de destruição financeira maciça com que agrediu tantos países nas últimas décadas e a decisão “soberana” de se defender foi afinal induzida pela pressão dos seus credores estrangeiros (sobretudo chineses) que ameaçaram com uma fuga que seria devastadora para o atual “american way of life”.


Segundo, FMI e Banco Mundial deixaram de ter autoridade para impor suas receitas, pois sempre usaram como bitola uma economia que se revela fantasma. Daqui em diante, a primazia do interesse nacional pode ditar, por exemplo, taxas de juro subsidiadas para apoiar indústrias em perigo (como as que o Congresso dos EUA acaba de aprovar para o setor automotivo).

Não estamos ante uma desglobalização, mas estamos certamente ante uma nova globalização pós-neoliberal internamente muito mais diversificada. Emergem novos regionalismos, já presentes na África e na Ásia, mas sobretudo importantes na América Latina, como o agora consolidado com a criação da União das Nações Sul-Americanas e do Banco do Sul.

 

 

 

Terceiro, as políticas de privatização da segurança social ficam desacreditadas: é eticamente monstruoso acumular lucros fabulosos com o dinheiro de milhões de trabalhadores humildes e abandonar estes à sua sorte quando a especulação dá errado.

 

Quarto, o Estado que regressa como solução é o mesmo que foi moral e institucionalmente destruído pelo neoliberalismo, o qual tudo fez para que sua profecia se cumprisse: transformar o Estado num antro de corrupção. Isso significa que, se o Estado não for profundamente reformado e democratizado, em breve será, agora, sim, um problema sem solução.


Quinto, as mudanças na globalização hegemônica vão provocar mudanças na globalização dos movimentos sociais e vão certamente refletir-se no Fórum Social Mundial: a nova centralidade das lutas nacionais e regionais; as relações com Estados e partidos progressistas e as lutas pela refundação democrática do Estado; as contradições entre classes nacionais e transnacionais e as políticas de alianças”.

 

 

 

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outubro 3, 2008 - Posted by | Outra economia | , , , , , , , , ,

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