Outras Trilhas

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Brasília: De volta para o futuro – Parte I

Brasília sempre gerou em mim, uma paulistana da Mooca, sentimentos contraditórios. Uma reação, aliás, compartilhada por grande parte de meus amigos que moram na capital. Em alguns momentos, ela é a cidade dos recomeços e dos infinitos espaços. Em outros, é o labirinto modernista que asfixia qualquer cidadão com sua escassez de esquinas, com sua abundância de repetições.

Por isso, quando algum estrangeiro me pergunta sobre como é viver em Brasília, costumo dar diferentes respostas, que dependem do meu estado de humor em relação à cidade. Quando estou de mal com a capital, eu me limito aos seus aspectos arquitetônicos. Falo da cidade forjada em cimento e vidro em menos de quatro anos. Descrevo o interior abafado dos edifícios. Concluo dizendo que o Plano Piloto parece ter a forma de avião, ainda que Lucio Costa, autor do famoso plano urbanístico, não tenha pensando nesse objeto voador na hora desenhá-la. Palavras dele: ‘‘Não tem nada de avião! Jamais foi um avião! Coisa ridícula! Seria inteiramente imbecil fazer uma cidade com forma de avião.”

Quando estou em paz com Brasília, ela é, simplesmente, meu set de “Back to the Future”. Como no filme de Robert Zemeckis, ela parece estar numa outra dimensão de tempo e espaço, criada para mudar a história do que ainda está por vir. Basta olhar para os edifícios, para suas “tesouras”: Brasília foi concebida com as mais futuristas idéias dos 50. Dizem até que foi objeto das profecias sobre o aparecimento de uma nova civilização feitas por um padre italiano no século XIX.

Brasília é o futuro do pretérito. Mas, sejamos justos: ela não se limita a um tempo verbal.

Brasília é Zemeckis com trilha sonora do Eagles. Peço perdão aos incríveis músicos locais (que são muitos). Mas, para mim, é inevitável lembrar de Hotel California quando penso na capital. Tenho a leve impressão de que a culpa é dos versos finais da música. Sabe, quando o viajante tenta deixar o edifício e o porteiro diz: “Você pode entrar quando quiser, mas não pode mais sair”?

Há muita especulação sobre a real identidade do Hotel Califórnia: já fizeram alusões à indústria fonográfica norte-americana, ao estilo vida yankee e até ao próprio inferno (que, aliás, resume bem as duas primeiras comparações). Para mim, Hotel Califórnia continua sendo a iluminada cidade que jamais teve a forma de avião.

To be continued…

P.S.: A foto deste post é de Javier Martinez, argentino, ONGueiro, rockeiro e, claro, morador de Brasília. Mais fotos de Javier estão na página que você pode acessar aí ao lado, na seção Tecnologia e Criação.

A versão de Hotel Califórnia é do Bob Marley, muito mais condizente com o ambiente descrito na música.

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junho 27, 2008 - Posted by | Brasilidades | , , , , , , , , ,

2 Comentários »

  1. “…Brasília é Zemeckis com trilha sonora do Eagles…”

    A melhor descrição de BSB que já ouvi na vida, sem dúvida.

    Comentário por ana zeminian | junho 27, 2008 | Resposta

  2. Olá! Já tive esta experiência com Brasília. Semanas e semanas a trabalho, mas com a visão de um quarto de hotel. Mas achei seu blog procurando pessoas que tivessem alguma relação com a Mooca. Que tivessem histórias legais, marcantes, saudosas sobre o bairro. Se você quiser ajudar…
    http://www.minhamooca.com.br/

    Abs,
    Dani Noyori.

    Comentário por Daniela Noyori | outubro 7, 2008 | Resposta


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