Outras Trilhas

Qual é a sua bússola?

Persépolis e a catarse na sala escura

Cidade do México. Sala 4 da Cineteca Nacional. Tarde de sábado.

Enquanto os créditos da animação Persépolis (França, EUA, 2007) subiam indicando o final da sessão de cinema, um espectador solitário batia palmas com entusiamo. Apenas alguns dos presentes repetiram o sinal de satisfação. Inconformado com o baixo número de adesões, o homem gritou para o lado silencioso da platéia: “E vocês? Não vão aplaudir uma obra com uma mensagem tão tocante?” Uma onda de risadas foi seguida por outra de aplausos. Desta vez, com minha acalorada participação.

Com as luzes já acesas, vi sair lentamente o homem responsável pela balbúrdia. O senhor, com seus 60 e poucos anos, deixava o cinema com uma bengala e a certeza do dever cumprido. Seu corpo não respondia mais à energia de suas idéias. Mas, francamente, isso não importava. No escuro, eles nos arrancou da condição de meros espectadores. O momento de risos e aplausos materializou nossa catarse. Sim, porque pelos rostos e comentários, parece que todos saimos comovidos pela força da autobiografia da iraniana Marjane Satrapi. Ela é a autora dos (badalados) quadrinhos que deram origem à animação e é diretora do filme juntamente com Vicent Paronnaud.

Persépolis  merece nosso aplauso. Durante 95 minutos, acompanhamos, absortos, a vida de Marjane e as reviravoltas políticas em seu país. Testemunhamos a história recente do Irã por meio dos olhos e emoções da irreverente narradora e a empatia é imediata. Ela é a garotinha que nos faz rir com seu imitações de Bruce Lee, a pré-adolescente que se descabela ouvindo Iron Maiden, a jovem que sai da depressão amorosa cantando uma desafinada versão de Eye of the Tiger.

Esse é o lado bem humorado da trama. Não vamos esquecer que Marjane é uma iraniana de 38 anos que cresceu no Irã e, nessa condição, não escapou da tragédia pessoal. Perdeu amigos e parentes na guerra, viu mortos entre escombros, testemunhou o radicalismo destroçar vidas e sofreu as dores do auto-exílio.

A fórmula narrativa não é, exatamente, nova. Basta lembrar da versão cinematográfica do best-seller O Caçador de Pipas, apenas para citar uma obra mais recente. Mas há algo a mais em Persépolis. O roteiro é bem construído e, na maior parte do tempo, não se rende aos atalhos fáceis. Uma animação inteligente e original dá vida  ao relato: os traços retrô de Marjane são a alma da história. Uma alma com trilha sonora bela e eficiente de Oliver Bernet.

Voilà! O Irã, de repente, não parecia mais um país tão distante. Os iranianos não eram “sangrentos” ou “selvagens” (mesmo que, segundo a narradora, alguns acreditem nisso). Lá estávamos nós, envolvidos com o drama da menina e de sua família, solidários com as vítimas da guerra e do radicalismo religioso. Ao nos depararmos com nossa aversão à intolerância, estávamos todos conectados: mexicanos, iranianos e uma brasileira. Algo que parece se repetir em outras platéias ao redor do mundo: Persépolis já arrebatou oito prêmios e indicações para o Globo de Ouro e para o Oscar de Melhor Filme de Animação.

Aquele senhor tinha razão ao incitar as palmas da platéia. Afinal, como não aplaudir alguém que nos faz sentir um pouco mais humanos?

PS.: Ok, há quem diga que Persépolis legitima idéias de intervenção dos sábios ocidentais (Bush e seus amigos investidores, for instance) nesses países “desgovernáveis.” Fico com a verdade de Marjane.

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junho 23, 2008 - Posted by | Café Outras Trilhas, México | , , , , ,

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