Outras Trilhas

Qual é a sua bússola?

Internet à la Cubana

Juro que estava preparada para publicar posts diretamente de Cuba. Aquela ilha socialista caribenha sempre gerou material farto para nossa imaginação e, agora, com a transição política, você esbarra com histórias incríveis a cada esquina. Em Cuba, a fumaça dos “puros”(charutos) se confunde com o ar das mudanças sociais e políticas. Se estivesse vivo e ainda morando em Havana, Hemingway estaria escrevendo e bebendo como nunca.

Mas, como você já deve saber, comunicação não é o forte da ilha. A grande maioria dos cubanos não pode ter Internet em casa. Só alguns profissionais das áreas de saúde, cultura e educação têm acesso à rede. Mesmo assim, grande parte deles só dispõe do serviço de recebimento e envio de mensagens. Navegar, só em escolas, centros culturais ou outros locais públicos, mas seguindo objetivos específicos. Internet livre só nos Telepuntos, da empresa de comunicações Ectsa, ou em hotéis. Nesse caso, a conta varia entre US$ 5 a US$6 dolares a hora.

É fato que, nesses oásis digitais, a conexão é boa na grande maioria das vezes. Em hotéis cinco estrelas, como o Meliá Cohiba, você pode até mesmo encontrar wi-fi de primeiro mundo por US$ 8 a cada 30 minutos. No entanto, é bem provável que você tenha que enfrentar um estafante périplo. Em Habana, tive dificuldades em encontrar os cartões que trazem a senha para entrar na rede. Em alguns hotéis, turistas fazem fila para usar um computador. No Telepunto da agitada calle Obispo, um dos maiores de Havana Vieja, não havia Internet.

Decidi, portanto, deixar o estresse de lado e resgatar meus hábitos anteriores ao ano 95 a.I. (antes da Internet). Anotava minhas observações em um caderno para, uma vez conectada, enviar minhas mensagens. Como a imprensa no país é controlada pelo Estado, tentava complementar as informações que lia no Granma com a Internet oficial dos cubanos: o boca a boca. Formei minha própria rede com novos amigos ou gente desconhecida que encontrava nas ruas. Assim, conseguia saber onde seria o show quente da noite ou ficar a par das notícias sobre a ilha e sobre o mundo além-mar. Claro, claro: foi bem mais cansativo do que ter a Internet com banda larga ao meu dispor. E, muitas vezes, a “conexão” falhava quando eu não encontrava pessoas informadas ou, simplesmente, estava cansada de percorrer as ruas debaixo do causticante sol caribenho. Mas, confesso, a experiência foi única.

Falar de Cuba é sempre percorrer um terreno político inflamável. Então, para fomentar o debate, vamos às explicações possíveis sobre o vácuo internético no país. Em artigo publicado recentemente no Granma, o governo cubano atribuiu as restrições na ilha ao embargo dos Estados Unidos, que impede Cuba de instalar os cabos de fibra ótica perto da costa norte-americana. Também afirmou que a estrutura que possui hoje não é suficiente e que “os custos de acesso à Internet são elevados”. Por isso, a opção foi oferecer um modelo de utilização social, criando redes internas (intranet) como, por exemplo, a Infomed (para os profissionais de saúde).

No entanto, o próprio governo admite adotar medidas de “segurança e controle” em relação ao uso da Internet em razão do constante pressão dos imperialistas. Os blogs críticos feitos a partir da ilha rebatem os argumentos oficiais e, superando as todas dificuldades que acabo de mencionar, criam novos contra-pontos sobre o cotidiano dessa Cuba transitória.

É o caso da criadora do badalado Generación Y, Yoani Sanchez, que acaba de ganhar um lugar na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela Time em razão do seu trabalho digital. Falei com ela há duas semanas e o bate-papo será tema de um post em breve.

Não há dúvidas que argumentos anti-Cuba como os de Yoani sempre podem – e são – usados pelas instituições que apóiam medidas contra regimes anti-EUA. Também admito discordar de algumas das posições da blogueira. Mas, depois do que vivi em Cuba, não posso deixar de considerar extraordinário o esforço da ex-filóloga de manter um blog crítico apesar de todas as restrições políticas e digitais do país.

P.S.: Em breve, publico as fotos da trilha cubana.

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maio 28, 2008 - Posted by | Em Cuba | , ,

2 Comentários »

  1. Valeu esperar este longo peŕiodo de silêncio do Outras Trilhas. Você consegue trazer uma visão crítica, quase imparcial, mantendo-se coerente com sua visão pessoal da realidade. Já estou curioso pelos próximos posts!

    Comentário por Adriano Sommer | maio 28, 2008 | Resposta

  2. Vou ficar aqui, ansiosamente, esperando os próximos posts. Wee! 😀

    Comentário por Cesar Cardoso | maio 28, 2008 | Resposta


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