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Arquivos para 'Em Cuba' Categoria

A transição na valente e criativa ilha socialista caribenha

Entrevista com a blogueira cubana Yoani Sánchez

Escrito por outrastrilhas em Julho 30, 2008

Estela Caparelli

Yoani Sanchez, a polêmica blogueira. Foto: Estela Caparelli

Clique aqui para ler a entrevista que realizei em Cuba com a polêmica blogueira Yoani Sánchez.

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Cuba em pixels

Escrito por outrastrilhas em Julho 16, 2008

Hoje, finalmente, baixei o restante das fotos produzidas em Cuba. Os momentos congelados em pixels trouxeram diante de mim uma ilha que, agora, parece quase lunar.

O tempo é perverso com os viajantes.

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O primeiro reality show político da blogosfera

Escrito por outrastrilhas em Junho 19, 2008

E a polêmica encabeçada pela blogueira cubana Yoani Sanchéz continua na Internet. Se você não tem acompanhando a história, está perdendo uma oportunidade única de acompanhar, online, a construção de uma intrigante “trama digital” sobre a transição histórica em Cuba, o único país socialista das Américas e um dos poucos a peitar o governo de Washington.

O assunto é muito sério mas, com o desenrolar da história, tenho a impressão de estar diante de um reality show político. O primeiro reality show político da blogosfera.

Resumo rápido para aqueles que ainda não conhecem a trama. Yoani Sanchéz é uma filóloga (formada em linguística e literatura) cubana de 32 anos que, em abril do ano passado, decidiu criar o blog Geração Y, uma alusão aos cubanos nascidos nos anos 70 e 80 batizados, ao estilo soviético, com nomes iniciados pela letra Y. Decidiu arriscar e lançar um blog crítico ao governo cubano com sua verdadeira identidade, com direito a foto, nome completo e CV resumido. Desde então, critica as regras do regime por meio de relatos sobre seu cotidiano em Cuba. Em uma espécie de monólogo interno, fala de sua rotina, da última medida tomada pelo presidente Raúl Castro, de cenas observadas em alguma rua de Havana.

Em poucos meses, Yoani atraiu os olhares da mídia internacional e de internautas, a maioria cubanos residentes fora da ilha. Um único post já chegou a receber seis mil comentários.

Em maio deste ano, Yoani foi incluída na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. No mesmo mês, voltou a chamar a atenção da mídia internacional quando foi impedida de viajar para a Espanha para receber o prêmio Ortega y Gasset, organizado pelo jornal El País. Nesse mesmo mês, o Geração Y atingiu a marca de nove milhões de hits.

Yoani divide opiniões. Para os críticos de Fidel Castro, ela é, simplesmente, a heroína da vez. Os mais céticos desconfiam que ela seja uma agente dos interesses imperialistas, uma mercenária ou, simplesmente, uma menina desorientada que, de forma ingênua, ajuda o inimigo cubano. Diante das centenas de perguntas recebidas por ela, respondeu, via blog: “Não tenho pedigree.”

No meio dessa história, surgiu outro personagem, Yohandry Fontana, um médico cubano de 37 anos que criou um outro blog para rebater as acusações da blogueira, que ele chama de “a outra Y”.

Esta semana, a trama voltou a ganhar fôlego ao contar com uma participação especial: o próprio Fidel Castro. Ele aparece na história por meio do (longo) prefácio que escreveu para o recém-lançado livro “Fidel, Bolivia y algo más…Una visita histórica al corazón de América Latina.”

Quase no final do texto, com data de 4 de junho, ele cita sete frases publicadas por Yoani e diz que lamenta que jovens cubanos como ela sejam “enviados especiais para fazer trabalhos secretos e de imprensa neocolonial da antiga metrópole espanhola que os premia.” É uma clara alusão ao Ortega y Gasset, oferecido a Yoani pelo jornal espanhol El País e classificado por Fidel como “um dos tantos prêmios que oferece o imperialismo para mover as águas de seu moinho”.

Fidel afirma “um dos objetivos” do prefácio é “desmascarar os métodos pérfidos y cínicos do império”. Segundo ele, “o inimigo é sumamente vil. Cavalga sobre os instintos, ambições e vaidades daqueles em que nunca germinou uma ética elementar.”

Bem, Yoani preferiu que o marido, o jornalista Reinaldo Escobar, respondesse às acusações. A resposta está em um post publicado ontem no blog de Reinaldo, o Desde Aquí. Não consegui entender bem o motivo. Tudo certo. Como bloguespectadora, já deveria esperar algo surpreendente.

Em Havana, entrevistei Yoani para matérias que estou preparando sobre a blogueira cubana. Em breve, publicarei a entrevista na íntegra.

Enquanto isso, você pode acompanhar o reality show político por meio dos blogs de Yoani e Yohandry (links estão aí ao lado, na Seção Blogs).

To be continued…

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Quase iguais

Escrito por outrastrilhas em Junho 12, 2008

Em Cuba, eu costumava perguntar a opinião das pessoas sobre as mudanças em curso no país. Na maioria das vezes, escutava queixas sobre dois temas: baixos salários e restrições para viajar ao exterior. Ao que tudo indica, o presidente Raúl Castro parece estar atento a essas reclamações. Na edição desta quarta-feira, o jornal Granma anunciou o fim do igualitarismo salarial, em vigor desde a revolução de 1959, e a adoção de um modelo de gestão em que os pagamentos são feitos com base no rendimento e produtividade. Até agosto, as empresas terão que se adequar às novas regras.

Isso quer dizer os trabalhadores serão remunerados a partir da produtividade e da qualidade do serviço prestado, sem teto salarial. Se trabalham mais, receberão mais e, desta forma, contribuem para o aumento da produtividade. Um ingrediente básico na receita da vizinhança capitalista.

Raúl, o “Castro pragmático”, assumiu a presidência de Cuba em fevereiro quando o imbatível Fidel deixou o cargo por problemas de saúde. Desde então, tomou várias medidas para liberar algumas das travas consideradas anacrônicas e desnecessárias pela própria população. Liberou a venda de celulares e computadores, autorizou a entrada de cubanos em hotéis e está sinalizando outras mudanças. Para os críticos, as medidas ainda são cosméticas. Para os cubanos, é o baile mais acelerado das últimas décadas.

O fim do igualitarismo salarial não é, de nenhuma forma, uma medida superficial. Mais do que uma mudança prática, tem implicações simbólicas importantes em um sistema em que o conceito de “igualdade” é algo fundamental. Nos últimos anos, Cuba tem testemunhado o agravamento das desigualdades sociais com o crescimento da indústria do turismo. Nos anos 90, o setor ajudou o país a superar a depressão econômica provocada pelo colapso da antiga URSS e agravada pelo irresponsável embargo econômico norte-americano. Mas criou um apartheid entre turistas e cubanos e entre cubanos que trabalham dentro e fora do turismo. Hoje, é evidente a emergência de uma nova classe social e da economia informal, a alternativa para os cubanos que precisam complementar sua renda familiar.

Essa é a realidade. Cuba ainda apresenta muitos indicadores positivos e, para mantê-los, é necessário ter os pés fincados no chão, ouvidos abertos para as ruas e olhos fechados para receitas liberais fáceis.

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Uma foto vale mil camisetas

Escrito por outrastrilhas em Junho 7, 2008

Che participava do funeral das vítimas da explosão (supostamente provocada pela CIA) de um navio francês ancorado no porto de Havana quando o fotógrafo Alberto Korda produziu a foto. Anos depois, a imagem se transformou em um dos símbolos do século XX, povoando o imaginário de milhões de pessoas e a estampa de milhares de camisetas.

A foto começou a se tornar célebre sete anos após a morte del Che, quando o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli decidiu usá-la na edição italiana dos diários do guerrilheiro.

Até o final de sua vida, Korda se recusou a receber dinheiro pelas fotos. Acreditava no socialismo e nas idéias do revolucionário.

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No Malecón, a espera

Escrito por outrastrilhas em Junho 7, 2008

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En la Plaza Vieja, el nuevo vola

Escrito por outrastrilhas em Maio 29, 2008

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Entre os pães, as idéias

Escrito por outrastrilhas em Maio 29, 2008

Foi tudo rápido e, por isso, faltou foco. Mas, agora, vejo que a falta de nitidez involuntária reflete melhor essa Cuba transitória.

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Do socialismo barbudo ao capitalismo vale-tudo. Em apenas 1 hora.

Escrito por outrastrilhas em Maio 28, 2008

21/05 - Mexicana de Aviación, MX 7579

Desde: La Habana (HAV)

Hora de salida: 03:45 PM

Hacia: Cancún (CUN)

Hora de llegada: 03:50 PM

Escalas: 0

Tiempo de vuelo: 1 hora, 5 minutos

Clase: Económica (S)

Asientos reservados: 1

Estado de la reserva: Reservada y confirmada

Código de confirmación: *EDZTUK

Havana e Cancún estão separadas por um pedaço de mar. Mas cinco décadas de história transformaram cidades tão próximas em dois mundos incrivelmente distintos. Pelo menos, até agora.

Você precisa apenas tomar um vôo de uma hora e cinco minutos para deixar a terra socialista dos barbudos rumo ao capitalismo dos mexicanos. Comecemos por Cuba. Ao chegar em Varadero, um outdoor revolucionário avisa: “O que se arrecada aqui vai para o povo cubano.” Sim, o Estado é dono de cada resort e dita o que deve ser feito com o dinheiro. Estamos na terra del Che.

Está certo. É fato que os cubanos enfrentam sérios problemas. Mas também é verdade que o dinheiro arrecadado é usado para os sistemas de educação e saúde que, acredite, funcionam tão bem quanto dizem.

Mas, passemos agora para a nossa paradisíaca Cancún. Na avenida hoteleira principal, a visão dos imponentes hotéis e de restaurantes de primeiro mundo é assombrosa. São quilômetros de construções suntuosas construídas para o prazer dos estrangeiros e de mexicanos com “lana” para gastar. Ao que tudo indica, depois da última devastação provocada por um furacão, há cerca de dois anos, o capital está apostando pesado no lugar. O desenvolvimento jura que está gerando empregos. Mas quem está ganhando mesmo são os investidores que, sinceramente, não parecem estar muito preocupados com os problemas ambientais provocados pelo turismo. E sejamos francos: a única preocupação social por ali parece ser a promoção de “fiestas” regadas a margueritas.

No fim dessa longa avenida, outra realidade mostra a cara. Pequenas casas e um comércio pequeno e precário acolhem as pessoas que trabalham para erguer ou servir clientes dos hotéis. São as periferias do paraíso.

Chegamos a Playa del Carmen que, um dia, foi reduto hippie mexicano. Novamente, estamos na rota dos dólares. Na pequena rua principal, chamada oportunamente de Quinta Avenida, uma loja da Starbucks convive com restaurantes que cobram até US$ 100 por um prato. Em uma esquina, um senhor que vende artesanato mostra para o filho de quatro anos o gringo que passa distraído e, às gargalhadas, ensina para o menino: “Fala pra ele ‘cheap price, cheap price’”

Tentamos nos afastar da praia pseudo-rústica rumo a Tulum, famosa pelas ruínas maias, pelas “cabañas” feitas de madeira e pelo estilo selvagem e hipongo. Hippies? Nem sinal deles. Logo, entendemos a razão. Cada noite em uma “cabaña” rústica vale US$ 45 dólares, um valor que deve chegar a US$ 60 na alta temporada.

No dia seguinte, partimos para Chichen Itzá. Na pequena van, recebemos mais um sinal de que Tulum, mesmo em área natural protegida, é um dos alvos preferenciais do “desenvolvimento”. “Temos uma casa de câmbio e viemos a Tulum para prospectar negócios. Isso aqui vai crescer muito. Não é fantástico?”", disse, entusiasmado, um mexicano que nos acampanhava na excursão.

Admito que sai de Cuba com muitas críticas em relação a algumas medidas do governo dos Castro, que considero anacrônicas e desnecessárias. Também é importante dizer que em Cuba há um universo de primeiro mundo feito apenas para os turistas endinheirados. Mas, no México, não pude deixar de imaginar em que a ilha dos barbudos poderia se transformar diante de uma eventual adoção de um capitalismo a la Mexicana. Apesar dos pesares, devo confessar: na exuberante riviera maia, senti falta de Havana.

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Internet à la Cubana

Escrito por outrastrilhas em Maio 28, 2008

Juro que estava preparada para publicar posts diretamente de Cuba. Aquela ilha socialista caribenha sempre gerou material farto para nossa imaginação e, agora, com a transição política, você esbarra com histórias incríveis a cada esquina. Em Cuba, a fumaça dos “puros”(charutos) se confunde com o ar das mudanças sociais e políticas. Se estivesse vivo e ainda morando em Havana, Hemingway estaria escrevendo e bebendo como nunca.

Mas, como você já deve saber, comunicação não é o forte da ilha. A grande maioria dos cubanos não pode ter Internet em casa. Só alguns profissionais das áreas de saúde, cultura e educação têm acesso à rede. Mesmo assim, grande parte deles só dispõe do serviço de recebimento e envio de mensagens. Navegar, só em escolas, centros culturais ou outros locais públicos, mas seguindo objetivos específicos. Internet livre só nos Telepuntos, da empresa de comunicações Ectsa, ou em hotéis. Nesse caso, a conta varia entre US$ 5 a US$6 dolares a hora.

É fato que, nesses oásis digitais, a conexão é boa na grande maioria das vezes. Em hotéis cinco estrelas, como o Meliá Cohiba, você pode até mesmo encontrar wi-fi de primeiro mundo por US$ 8 a cada 30 minutos. No entanto, é bem provável que você tenha que enfrentar um estafante périplo. Em Habana, tive dificuldades em encontrar os cartões que trazem a senha para entrar na rede. Em alguns hotéis, turistas fazem fila para usar um computador. No Telepunto da agitada calle Obispo, um dos maiores de Havana Vieja, não havia Internet.

Decidi, portanto, deixar o estresse de lado e resgatar meus hábitos anteriores ao ano 95 a.I. (antes da Internet). Anotava minhas observações em um caderno para, uma vez conectada, enviar minhas mensagens. Como a imprensa no país é controlada pelo Estado, tentava complementar as informações que lia no Granma com a Internet oficial dos cubanos: o boca a boca. Formei minha própria rede com novos amigos ou gente desconhecida que encontrava nas ruas. Assim, conseguia saber onde seria o show quente da noite ou ficar a par das notícias sobre a ilha e sobre o mundo além-mar. Claro, claro: foi bem mais cansativo do que ter a Internet com banda larga ao meu dispor. E, muitas vezes, a “conexão” falhava quando eu não encontrava pessoas informadas ou, simplesmente, estava cansada de percorrer as ruas debaixo do causticante sol caribenho. Mas, confesso, a experiência foi única.

Falar de Cuba é sempre percorrer um terreno político inflamável. Então, para fomentar o debate, vamos às explicações possíveis sobre o vácuo internético no país. Em artigo publicado recentemente no Granma, o governo cubano atribuiu as restrições na ilha ao embargo dos Estados Unidos, que impede Cuba de instalar os cabos de fibra ótica perto da costa norte-americana. Também afirmou que a estrutura que possui hoje não é suficiente e que “os custos de acesso à Internet são elevados”. Por isso, a opção foi oferecer um modelo de utilização social, criando redes internas (intranet) como, por exemplo, a Infomed (para os profissionais de saúde).

No entanto, o próprio governo admite adotar medidas de “segurança e controle” em relação ao uso da Internet em razão do constante pressão dos imperialistas. Os blogs críticos feitos a partir da ilha rebatem os argumentos oficiais e, superando as todas dificuldades que acabo de mencionar, criam novos contra-pontos sobre o cotidiano dessa Cuba transitória.

É o caso da criadora do badalado Generación Y, Yoani Sanchez, que acaba de ganhar um lugar na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela Time em razão do seu trabalho digital. Falei com ela há duas semanas e o bate-papo será tema de um post em breve.

Não há dúvidas que argumentos anti-Cuba como os de Yoani sempre podem - e são - usados pelas instituições que apóiam medidas contra regimes anti-EUA. Também admito discordar de algumas das posições da blogueira. Mas, depois do que vivi em Cuba, não posso deixar de considerar extraordinário o esforço da ex-filóloga de manter um blog crítico apesar de todas as restrições políticas e digitais do país.

P.S.: Em breve, publico as fotos da trilha cubana.

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