Pelo veto ao projeto de cibercrimes - Em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento na Internet Brasileira
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Outras Trilhas é Creative Commons
O livre compartilhamento do conhecimento contribui de forma decisiva para a construção de uma sociedade mais criativa e justa. Por isso, este blog segue a filosofia da cultura livre e todo o seu conteúdo está sob a Licença Creative Atribuição 2.5 Brasil Commons. Clique nesse link para saber o que isso significa: http://creativecommons.org/licenses/by/2.5/br/
Diz a lenda que George Harrison criou Here Comes the Sun em uma manhã (claro) ensolarada na casa de Eric Clapton. A letra é tão simples como pão com manteiga, mas expressa com uma clareza desconcertante esse sentimento bom que sentimos, bem aqui, dentro da gente.
Hoje, meu pai é não é apenas um pai. Ele também é meu irmão de trilhas.
Imagine a combinação de jazz com música cigana. Agora, pense que essa música está sendo interpretada por um exímio guitarrista. Voilá! Você tem diante de si Django Reinhardt, criador de maravilhas sonoras capazes de envolver o mais torpe dos mortais.
Django Reinhardt foi o primeiro guitarrista europeu a exercer influência nos Estados Unidos, país precursor do jazz. Nem mesmo o acidente que provocou lesões sérias em sua mão esquerda, ocorrido quando ele tinha 18 anos, foi capaz de tirar de Django seu divino talento para a guitarra.
Filho de ciganos nômades, nasceu em um acampamento cigano na Bélgica em 1910. Até os dez anos viajava pela Bélgica, França, Itália e norte da África com a caravana. Seu pai era violinista e, ainda menino, Django já demonstrava grande habilidade para tocar instrumentos. A música cigana teria, mais tarde, influência decisiva no trabalho do músico, para a sorte de todos nós, fãs interplanetários do jazz.
Nos anos 30, junto com o francês Stephane Grappelli (violino), Django criou o estilo Manouche, conhecido também como “Gypsy Jazz”. E o que é Manouche? Um som contagiante, sensual, hipnótico ou, em poucas palavras, um deleite para qualquer alma a procura de boa música.
Se você não conhece Django Reinhardt, baixe, empreste ou roube um álbum, se for o caso. Coletânea de música livre que se preze precisa desesperadamente de Manouche e de seu criador.
Exemplo de ativismo a favor da liberdade cultural e do conhecimento no Canadá. A banda The Craft Economy voltou a espalhar pelas ruas de Toronto pacotes plásticos com CDs. Mas, desta vez, além de músicas da banda, o CD inclui uma mensagem contra um projeto de lei sobre direitos autorais recentemente aprovado no Canadá, o C-61. O projeto de lei restringe a liberdade de reprodução de obras na linha copyleft.
Os músicos fixaram em árvores, postes e cabines telefônicas 150 pacotes com CDs contendo duas músicas (ambas com licenças Creative Commons) e uma mensagem crítica em relação à nova legislação. A banda já havia usado essa estratégia para divulgar seus shows.
“Nós acreditamos que devemos lutar contra a C-61 e que você deveria fazer o mesmo. Nós já dissemos isso antes, mas faça uma pesquisa sobre a lei. É uma droga [...] A lei C-61 vai mudar a maneira que você escuta este CD, usando Creative Commons Attribution-Noncommercial 2.5 license. Essa licença dá liberdade para compartilhar nossa música com amigos e inimigos, remixá-la ou usá-la de formas criativas, oferecendo a você a possibilidade de dar créditos do trabalho para nós e não ganhar dinheiro com ele. É justo para vocês e para nós. É desta maneira que a arte deveria funcionar”.
Pergunte por nomes de artistas mexicanas da primeira metade do século XX e, quase invariavelmente, você deverá ouvir o nome da pintora Frida Kahlo.
No mesmo período, no entanto, outras mulheres ajudaram a revolucionar a arte do país.
Se você estiver no México entre os dias 15 de julho e 12 de outubro, poderá conferir os trabalhos dessas artistas na mostra Mujeres artistas en el México de la Modernidad: las contemporáneas de Frida. A exposição será realizada no Museo Mural Diego Rivera.
Se você não puder estar por aqui e gosta do tema, anote aí os nomes das artistas para um google básico:
Alice Rahon, Andrea Gómez, Angelina Beloff, Aurora Reyes, Carmen de Antúnez, Celia Calderón, Cordelia Urueta, Elizabeth Catlett, Elena Huerta, Fanny Rabel, Isabel Villaseñor, Kati Horna, Leonora Carrington, Lola Álvarez Bravo, Lola Cueto, María Izquierdo, Mariana Yampolsky, Nahui Olin, Olga Costa, Remedios Varo, Rosa Castillo, Rosa Rolanda, Rosario Cabrera, Rina Lazo, Sarah Jiménez Vernis, Tina Modotti.
A maioria das obras reflete uma profunda preocupação social e tem forte influência das idéias da Revolução Mexicana. Suas autoras têm em comum “não apenas a luta, mas também a participação ativa, a entrega, o despreendimento, o esquecimento de si mesmo, fundir-se com uma grande causa, a (causa) de um jovem país que se constrói depois da Revolução, a do renascimento mexicano, que atrai artistas do mundo inteiro ao México”, afirma a escritora Elena Poniatowska em texto do catálogo da exposição.
A foto acima é de Tina Modotti, fotógrafa italiana que viveu muitos anos no México. Fascinante não apenas por seu trabalho, mas por sua tumultuada biografia.
Ontem, sexta-feira, (pois é, só ontem) foi dia de estréia de WALL-E nos cinemas mexicanos, com as longuíssimas filas já esperadas em lançamentos de blockbusters do gênero.
É realmente inevitável repetir as já repetidas comparações entre o robozinho da produção Disney/Pixar e Carlitos, o mítico personagem criado por Charles Spencer Chaplin Jr.
No ano de 2700, o vagabundo vivido por Chaplin no século XX reencarna no robô WALL-E, uma espécie de catador do futuro (seu nome é a sigla em inglês para Levantadores de Cargas Desnecessárias da Terra). Ele é uma figura solitária em um mundo tomado pelo lixo produzido pelos humanos, que abandonaram o planeta contaminado em um cruzeiro galáctico de luxo.
O personagem não apenas resgata as geniais técnicas de expressão do cinema mudo. Seus trejeitos lembram muito os do lendário andarilho. Carlitos mantinha sua elegância usando chapéu-coco, um desgastado fraque preto e grandes sapatos velhos, mais largos que seus pés. No futuro hipotético trazido pela animação, Wall-E preserva sua altivez (e eficiência) trocando suas próprias peças por similares encontrados em meio ao lixo.
Mas o que mais aproxima o catador de metal do vagabundo é a “matéria-prima” dos dois personagens. Como Carlitos, Wall-E é uma figura generosa, sensível e eternamente otimista. Consegue encontrar beleza e motivação em um mundo povoado pela adversidade. Sua imagem aparentemente frágil e desengonçada esconde coragem e muita integridade, qualidades cada vez mais raras em seres humanos.
Carlitos é uma das melhores criações dos tempos modernos. Wall-E é apenas mais uma prova de que ela ainda pode comover muita gente. Em qualquer tempo ou espaço.
E esse feito já valeu os longos e ruidosos minutos de espera na fila do cinema.
Há uma simplicidade quase desconcertante na música do pianista Torley. Confesso que fiquei um pouco desconfiada com a palavra New Age que acompanha o nome do álbum digital Solo Piano 7. Nada realmente contra músicas dessa categoria. Mas, felizmente, não encontrei algo nessa linha nas composições do músico copyleft.
Achei na faixa “Just as it is” o que procurava na minha pausa para o café: nenhum compromisso, apenas o sossego de um final de tarde. Se é o que você também está buscando, apenas clique aqui.
Torley é um daqueles caras quase inclassificáveis. No mundo real, é músico, designer e faz trabalhos como comediante. No mundo virtual, seus avatares são instrutores no Second Life. Você pode visitá-lo em seu website pessoal ou em seu escritório no SL. A imagem que você vê no alto deste post é uma de suas criações: uma textura que você ou seu avatar no SL podem usar sem pagar um real ou Linden pelo serviço.
Após ler o perfil de Torley, confesso que fiquei com sérias dúvidas sobre a verdadeira identidade do autor de Solo Piano 7. Mas, who cares?, recomendo “Just as it is” e o design do moço. Sem compromisso.
Lembrando que Música Livre desta semana é mais um feito do Jamendo e do projeto Creative Commons.
Era uma vez o mundo descomplicado dos megabytes. Na era do Petabyte (quantidade monstruosa de dados processados pelo Google a cada 72 minutos), nossa capacidade de entender quantidades massivas de dados está tornando obsoletos os métodos científicos conhecidos. Essa mudança é tema da capa da última edição da Wired. Parte do material pode ser acessado for free na Internet.
Não é segredo para ninguém meu hábito incontrolável de freqüentar as páginas impressas e virtuais da revista. Mas, desta vez, recomendo fortemente a leitura da matéria de capa.
“A era Petabyte é diferente porque mais é diferente. Kilobytes eram armazenados em floppy disks. Megabytes armazenados em hard disks. Terabytes em disk arrays. Petabytes são armazenados em uma nuvem. A medida em que nos movemos ao longo dessa progressão, saimos da analogia do folder; da analogia do arquivo de escritório para a da biblioteca e… — bem, quando se trata de petabytes, fugimos de todas essas analogias organizacionais”.
Decidido. Ao lado de minha Santa Gitana del Mezcal Reposado, decidi colocar um santinho (ver reprodução abaixo) da minha Santa Petabyte das Causas Difusas. Tenho certeza que ela é capaz de iluminar minha humana ignorância com sua infinita de generosidade de dados. Meus petabytes de curiosidade agradecem a santa benção.
Cidade do México. Sala 4 da Cineteca Nacional. Tarde de sábado.
Enquanto os créditos da animação Persépolis (França, EUA, 2007) subiam indicando o final da sessão de cinema, um espectador solitário batia palmas com entusiamo. Apenas alguns dos presentes repetiram o sinal de satisfação. Inconformado com o baixo número de adesões, o homem gritou para o lado silencioso da platéia: “E vocês? Não vão aplaudir uma obra com uma mensagem tão tocante?” Uma onda de risadas foi seguida por outra de aplausos. Desta vez, com minha acalorada participação.
Com as luzes já acesas, vi sair lentamente o homem responsável pela balbúrdia. O senhor, com seus 60 e poucos anos, deixava o cinema com uma bengala e a certeza do dever cumprido. Seu corpo não respondia mais à energia de suas idéias. Mas, francamente, isso não importava. No escuro, eles nos arrancou da condição de meros espectadores. O momento de risos e aplausos materializou nossa catarse. Sim, porque pelos rostos e comentários, parece que todos saimos comovidos pelaforça da autobiografia da iraniana Marjane Satrapi. Ela é a autora dos (badalados) quadrinhos que deram origem à animação e é diretora do filme juntamente com Vicent Paronnaud.
Persépolis merece nosso aplauso. Durante 95 minutos, acompanhamos, absortos, a vida de Marjane e as reviravoltas políticas em seu país. Testemunhamos a história recente do Irã por meio dos olhos e emoções da irreverente narradora e a empatia é imediata. Ela é a garotinha que nos faz rir com seu imitações de Bruce Lee, a pré-adolescente que se descabela ouvindo Iron Maiden, a jovem que sai da depressão amorosa cantando uma desafinada versão de Eye of the Tiger.
Esse é o lado bem humorado da trama. Não vamos esquecer que Marjane é uma iraniana de 38 anos que cresceu no Irã e, nessa condição, não escapou da tragédia pessoal. Perdeu amigos e parentes na guerra, viu mortos entre escombros,testemunhou o radicalismo destroçar vidas e sofreu as dores do auto-exílio.
A fórmula narrativa não é, exatamente, nova. Basta lembrar da versão cinematográfica do best-seller O Caçador de Pipas, apenas para citar uma obra mais recente. Mas há algo a mais em Persépolis. O roteiro é bem construído e, na maior parte do tempo, não se rende aos atalhos fáceis. Uma animação inteligente e original dá vida ao relato: os traços retrô de Marjane são a alma da história. Uma alma com trilha sonora bela e eficiente de Oliver Bernet.
Voilà! O Irã, de repente, não parecia mais um país tão distante. Os iranianos não eram “sangrentos” ou “selvagens” (mesmo que, segundo a narradora, alguns acreditem nisso). Lá estávamos nós, envolvidos com o drama da menina e de sua família, solidários com as vítimas da guerra e do radicalismo religioso. Ao nos depararmos com nossa aversão à intolerância, estávamos todos conectados: mexicanos, iranianos e uma brasileira. Algo que parece se repetir em outras platéias ao redor do mundo: Persépolis já arrebatou oito prêmios e indicações para o Globo de Ouro e para o Oscar de Melhor Filme de Animação.
Aquele senhor tinha razão ao incitar as palmas da platéia. Afinal, como não aplaudir alguém que nos faz sentir um pouco mais humanos?
PS.: Ok, há quem diga que Persépolis legitima idéias de intervenção dos sábios ocidentais (Bush e seus amigos investidores, for instance) nesses países “desgovernáveis.” Fico com a verdade de Marjane.
Em Vivir Adrede (Viver de Propósito, Editora Alfaguara, 152 pgs), as palavras do poeta e escritor uruguaio Mario Benedetti nos carregam para lugares onde somos confrontados com verdades incômodas. Ao abrir o livro, concordamos em embarcar em suas reflexões sobre a vida (ou a ausência dela). Benedetti é agora um homem de 87 anos que, após abraçar idealismos, comprova que tudo segue igual nesse “velho mundo”: nossa essência, nossos fantasmas. Quando terminamos a leitura, temos apenas uma certeza: enquanto o mundo criar Benedettis, ainda valerá a pena estar por aqui.
PS.: E, se o mundo parece dizer que não vale, haverá sempre uma chanson copyleft aceitando seu pedido de exílio. Em caso de despressurização da cabine, clique no álbum abaixo.