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Le Monde e a onda digital

Escrito por outrastrilhas em Abril 15, 2008

A crise financeira que arrasta os meios tradicionais de comunicação em todo o mundo bateu em cheio na porta do tradicional jornal francês Le Monde. O grupo anunciou uma reestruturação que prevê venda de revistas e demissões de até 130 funcionários. Entre eles, estão cerca de 90 jornalistas, ou 25% da redação do veículo. Segundo a BBC, em 2007 o grupo Le Monde já havia vendido sua rede de jornais regionais. Chegou a aumentar sua tiragem. Mas, mesmo assim, o grupo amargou prejuízos de 20 milhões de euros (R$53 mi) em 2007 e acumula uma dívida que totaliza 150 milhões de euros (R$ 400 mi).

E como os funcionários reagiram? Ora, no melhor estilo francês: cruzando os braços em protesto. A edição de terça-feira, que circularia na tarde desta segunda-feira, não saiu as ruas e os jornalistas da versão eletrônica se recusaram a publicar as notícias que estariam nessa edição. É a primeira greve do Le Monde em 32 anos.

A notícia traz, novamente, o debate sobre o futuro da mídia tradicional e a expansão de novos meios de comunicação e expressão. Os problemas enfrentados pelo Le Monde são, novamente, um reflexo do avanço da Internet que, nos últimos anos, tem absorvido avidamente as receitas publicitárias. Alguns analistas também apontam a expansão dos blogs como uma das causas desse definhamento midiático. Segundo eles, muitos leitores têm preferido o tom assumidamente pessoal e opinativo dos blogs. Hoje, não é difícil encontrá-los - em formatos mais comportados - nos portais e versões eletrônicas dos veículos tradicionais.

Mas, no caso francês, também existem outras nuances. Em um artigo de 2005, Ignacio Ramonet do Le Monde Diplomatique já dizia o seguinte:

“as causas externas dessa crise são conhecidas. Uma delas é a ofensiva devastadora dos jornais gratuitos [...] Eles canalizam para si consideráveis fluxos publicitários, pois os anunciantes não distinguem o leitor que compra seu jornal daquele que não paga. Para resistir a essa concorrência – que poderia ser mortal e que já ameaça os semanários –, alguns jornais, principalmente na Itália e na Espanha, oferecem diariamente, por um pequeno custo adicional, um DVD, um CD, um livro, uma enciclopédia etc. Dessa maneira, confundem ainda mais sua identidade, desvalorizam o título que publicam e dão início a uma engrenagem diabólica da qual se ignoram as conseqüências.”

É sempre importante lembrar que, além dos fatores externos, há aspectos relacionados à própria atividade que ajudam a explicar parte do problema. Um deles é a crescente perda de credibilidade de muito desses veículos de comunicação junto aos seus leitores.

2 Respostas para “Le Monde e a onda digital”

  1. Adriano Sommer Disse:

    Sua análise está correta. Reforço a questão das outras mídias e da credibilidade, e acrescento mais um fator neste caldo: tempo.
    Eu mesmo cancelei a assinatura de jornais e revistas principalmente por esses três fatores.
    Em dias com aparentemente menos horas, sentar-se para ler o jornal diário ou uma revista, com exceção da sala de espera do consultório médico, é algo que não existe mais.
    Além disso, o jornal já chegava atrasado: havia lido tudo que me interessava na internet…
    E eu que pensava que só minha profissão era abalada vigorosamente por essas novas outras trilhas virtuais!

  2. Inácio França Disse:

    Adriano,

    tem um livrinho chamado “por que estudar a mída?”, do teórico da comunicação Roger Silverstone, falecido em 2006, que toca nessa questão do tempo. Nossa atenção, ou seja, nosso tempo e nosso olhar são disputados por revistas, outdoors, jornais, sites, blogs, embalagens, rótulos, lançamentos no cinema, “livros obrigatórios”.

    Precisam do nosso tempo para nos seduzir, para induzir nosso disposição para consumir e nos posicionarmos. Nosso temp0 é um elemento, uma matéria-prima talvez, das mais valiosas. O ritmo de trabalho e tarefas nas empresas e instituições globalizadas torna essa matéria-prima ainda mais rara.

    Você tocou num ponto fundamental.

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